Michele Bravi lança 'Commedia Musicale': um álbum solar entre riso, teatro e orquestra

Michele Bravi lança 'Commedia Musicale': álbum solar entre riso, teatro e orquestra; reflexões sobre paternidade e posicionamentos públicos.

Michele Bravi lança 'Commedia Musicale': um álbum solar entre riso, teatro e orquestra

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Michele Bravi lança 'Commedia Musicale': um álbum solar entre riso, teatro e orquestra

Por Chiara Lombardi — Como um espelho do nosso tempo que busca decifrar o riso e o silêncio, Michele Bravi apresenta Commedia Musicale, um álbum que aposta na luz depois de uma trajetória mais crepuscular. Lançado em 17 de abril, o trabalho revela um artista que se permite brincar com a própria imagem, resgatando memórias de infância e risadas — até aquelas que hoje causam um pouco de constrangimento, como sua primeira leitura, o livro intitulado «Un culetto indipendente».

O disco é uma colagem de referências: muita orquestra, arranjos de Alterisio Paoletti e uma teatralidade que remete tanto ao cabaret quanto ao show de grande formato — um Barnum sonoro que lembra um musical de Broadway meio atrapalhado, ideal para a representação de “uma quotidianidade em que não acontece nada, entediante e monótona”.

São 11 faixas produzidas por Bravi ao lado de Carlo di Francesco — este último ligado a figuras centrais da canção italiana, como Fiorella Mannoia, que participa do disco e subiu ao palco do Ariston para um dueto-tributo a Ornella Vanoni com «Domani è un altro giorno». Entre as canções, destaca-se o single Genitore 3, onde a temática da genitorialidade ganha sutileza e carga dramática dentro daquilo que poderia ser um número teatral.

Bravi descreve o álbum como um movimento de faz de conta que, ao mesmo tempo, confronta questões reais: Deus, a paternidade, o lugar do artista frente ao público. Sobre a polêmica envolvendo Trump e o Papa, o cantautor foi direto — ao ler a notícia, esperou ver uma figura tão simbólica tomar uma posição clara «contra quem está fazendo um delírio no mundo». Ouvir que “eu não entro no debate com ele” soou para ele como «uma ocasião perdida».

O processo de criação trouxe surpresa até para o próprio autor. “Os discos anteriores eram um pouco lunares, crepusculares; este é extremamente solar”, conta. Ao ouvir o material finalizado, Bravi chorou por uma semana, dividido entre o orgulho artístico e a interrogação sobre se o mercado estava pronto para essa mudança. Foi um TikTok — exibindo uma antiga entrevista de Fellini — que funcionou como bússola: “Se um filme meu agrada a todos, fracassei”. Não se coloca ao nível de Fellini, mas usa a máxima como um desafio ético: a arte tem que dividir opiniões para ter sentido.

Há também a influência das experiências de ator: a cena cultural atravessada por cortes e pela sensação de um “festival sem Itália” que reduziu investimentos, freou produções e abriu uma crise para jovens roteiristas e intérpretes. Ainda assim, Bravi segue — estará em Cannes em uma coprodução ítalo-francesa intitulada “R” — e leva consigo o novo roteiro musical, feito de contraste entre riso e reflexão.

Em suma, Commedia Musicale é o reframe de um artista que decidiu trocar o crepúsculo pela luz, sem trair a densidade. É um álbum que se coloca como um pequeno teatro portátil, onde o quotidiano ganha figurinos e a canção volta a ser aquele instrumento que sacode o público: nem para agradar a todos, nem para ser confortável — mas para causar, provocar e, acima de tudo, fazer pensar.