Palazzo Citterio, Milão: a arte digital de Sougwen Chung e as 'Dormienti' de Mimmo Paladino em diálogo

No Palazzo Citterio, Milano: Sougwen Chung apresenta 'Body Machine. Meridians' e Mimmo Paladino exibe 'Le Dormienti' em diálogo entre tecnologia e memória.

Palazzo Citterio, Milão: a arte digital de Sougwen Chung e as 'Dormienti' de Mimmo Paladino em diálogo

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Palazzo Citterio, Milão: a arte digital de Sougwen Chung e as 'Dormienti' de Mimmo Paladino em diálogo

Por Chiara Lombardi

Até 12 de julho, os visitantes de Milano têm a rara oportunidade de confrontar duas sensibilidades artísticas que funcionam como espelhos complementares do nosso tempo no histórico Palazzo Citterio, espaço museal ligado à Pinacoteca di Brera. No salão de recepção dedicado à experimentação digital, é possível ver a instalação vídeo da artista sino-canadense Sougwen Chung: Body Machine. Meridians.

A obra de Sougwen Chung explora a confluência entre inteligência artificial, robótica e percepção corporal. Utilizando algoritmos e dados ambientais, ela gera fluxos visuais que se movem com uma cadência quase musical, como fractais que respiram. A tecnologia não funciona aqui como mera ferramenta, mas como parceiro de cena; o resultado é uma coreografia estética que aproxima a sensibilidade técnica do conceito de corpo e das dinâmicas do ambiente. É difícil não pensar, diante desses movimentos etéreos, no roteiro oculto que autores como Artaud ou Deleuze buscaram nomear — um processo que remapeia o corpo numa fronteira entre organismo e máquina.

Descendo ao grande salão ipogeo, acessível pelo cortile d'onore, o espectador encontra outra face do mesmo eco cultural: as famosas Le Dormienti de Mimmo Paladino, em exibição até 26 de julho. Em uma penumbra pensada, as esculturas evocam tanto os restos humanos de Pompeia e Ercolano quanto ícones e talismãs de uma iconografia atemporal. O trabalho de Paladino reinsere o conceito clássico e cristão do repouso como limiar entre vida terrena e ultraterrena, propondo uma arqueologia da memória que toca o espectador de forma íntima e ritual.

Juntas, as duas mostras transformam Palazzo Citterio num pequeno laboratório de sentidos: de um lado, a semiótica do viral e da máquina que produz sensações sutis; do outro, a materialidade ancestral que conserva vestígios e significados. Para quem acompanha tendências de arte contemporânea, este conjunto funciona como um reframe da realidade — um cenário de transformação onde o tecnológico e o primitivo se enfrentam e se afirmam como dois polos de uma mesma narrativa cultural.

Se a instalação de Sougwen Chung convida à percepção expandida, as Dormienti de Mimmo Paladino convidam ao recolhimento e à contemplação. Em tempos em que o entretenimento muitas vezes busca apenas o impacto imediato, estas obras nos lembram que a arte continua a ser um dispositivo para interrogarmos quem somos e onde nos situamos no grande palco da história.

Informações práticas: Body Machine. Meridians em exibição até 12/07; Le Dormienti de Mimmo Paladino em exibição até 26/07. Local: Palazzo Citterio, sede museal da Pinacoteca di Brera, Milano.