Em Milan, o encontro entre a arte digital de Sougwen Chung e as 'Dormienti' de Mimmo Paladino em Palazzo Citterio

Em Milano, Palazzo Citterio apresenta Sougwen Chung (Body Machine) e as 'Le Dormienti' de Mimmo Paladino: encontro entre arte digital e memória.

Em Milan, o encontro entre a arte digital de Sougwen Chung e as 'Dormienti' de Mimmo Paladino em Palazzo Citterio

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Em Milan, o encontro entre a arte digital de Sougwen Chung e as 'Dormienti' de Mimmo Paladino em Palazzo Citterio

Por Chiara Lombardi — Há uma delicada tensão entre tecnologia e ritual no coração de Milano. Até 12 de julho, a sala de acolhimento de Palazzo Citterio, anexa à Pinacoteca di Brera, abriga o vídeo experimental da artista sino-canadense Sougwen Chung, intitulado Body Machine. Meridians. A peça, projetada para interrogar as fronteiras entre corpo, meio e máquina, oferece ao público uma experiência que é ao mesmo tempo visual e quase coreográfica.

A obra de Sougwen Chung opera como um espelho do nosso tempo: ela mistura arte digital, inteligência artificial e robótica com dados ambientais e percepção corporal. O resultado são fluxos visuais que se movem com uma elegância quase musical, sugerindo uma coreografia entre algoritmo e sensibilidade humana. Em cena, a processualidade lembra o que Artaud, Deleuze e Guattari delinearam com a noção de "corpo sem órgãos" — uma superfície em transformação contínua, onde a técnica deixa de ser ferramenta para se tornar coautora da forma.

Chung eleva a estética dos fractais a uma sutileza oriental, um refinamento que transforma padrões repetitivos em gestos poéticos. Para o observador atento, a instalação funciona como um reframe da realidade: o que parecia domínio exclusivo do humano — o gesto, a intenção, a respiração — é reescrito por sinais, sensores e matrizes que traduzem o ambiente em poesia visual.

Se a exposição de Sougwen Chung nos leva ao limiar entre natureza e máquina, descer à grande sala ipogea (a Stirling) é entrar em contato com o oposto metafísico dessa pulsação tecnológica. Até 26 de julho, ali estão as icônicas Le Dormienti de Mimmo Paladino, obras de 1998 que evocam os restos humanos de Pompeia e Ercolano para transformá-los em talismãs contemporâneos.

As figuras de Mimmo Paladino, banhadas por uma penumbra reverente, recuperam antigas noções de repouso — tanto no sentido grego quanto cristão — como uma passagem entre a existência terrena e o além. Em contraste com o movimento quase líquido de Body Machine. Meridians, as Le Dormienti impõem uma quietude que é, ao mesmo tempo, íntima e monumental: um convite ao recolhimento e à meditação sobre memória e ruína.

Juntas, as mostras em Palazzo Citterio compõem um pequeno mas potente cenário de transformação. De um lado, a tecnologia que reescreve a corporalidade; do outro, a tradição que preserva o silêncio dos mortos como narrativa coletiva. Para quem circula entre as duas salas, a experiência é semelhante a assistir a um filme em capítulos distintos — cada cena ilumina a outra, e o espectador é forçado a perguntar: qual é o roteiro oculto da nossa relação com o tempo, a memória e a técnica?

Informações práticas: Body Machine. Meridians permanece em exibição até 12 de julho; as Le Dormienti podem ser vistas até 26 de julho, ambas em Palazzo Citterio, Milano. Uma visita aqui é também um convite a repensar como a arte contemporânea articula o passado arqueológico e o futuro algorítmico, entre o silêncio sepulcral e o rumor eletrônico.