Mimmo Paladino e os 'Dormienti' tomam Palazzo Citterio: sono, arquitetura e memória

Mimmo Paladino em Palazzo Citterio: os 'Dormienti' em diálogo com a Sala Stirling, de 16/05 a 26/07/2026, entre escultura, desenho e trilha sonora de Brian Eno.

Mimmo Paladino e os 'Dormienti' tomam Palazzo Citterio: sono, arquitetura e memória

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Mimmo Paladino e os 'Dormienti' tomam Palazzo Citterio: sono, arquitetura e memória

Por Chiara Lombardi — Em um gesto que é ao mesmo tempo retorno e reframing, Mimmo Paladino reaparece em um espaço público de Milão com uma proposta que dialoga intimamente com o lugar: a série dos Dormienti. A partir de 16 de maio e até 26 de julho de 2026, a Sala Stirling de Palazzo Citterio acolhe esse conjunto emblemático, numa montagem pensada para revelar o caráter teatral e arquitetural da obra.

Produzida por La Grande Brera em colaboração com o Archivio Paladino e curada por Lorenzo Madaro, a exposição apresenta a série completa dos Dormienti: trinta e duas esculturas em terracota, derivadas de uma única matriz e dispostas de formas variadas conforme o espaço. O resultado é uma mise-en-scène em que os corpos reclinados — fetais, suspensos entre vigília e sonho — configuram um verdadeiro paisagem de paradas, convidando o espectador a um caminhar que transforma contemplação em diálogo.

Ao entrar na Sala Stirling, o visitante encontra um cenário quase hipogeo, onde o silêncio volta-se polissemicamente: é pausa, é memória, é eco. A circulação não é meramente funcional; é performativa. O público movimenta-se livremente entre as figuras, criando confrontos sensoriais e temporalidades distintas — uma experiência que lembra o modo como a arquitetura pode atuar como partitura, orquestrando ritmos de atenção e esquecimento.

Concebidos no final dos anos 1990 e mostrados pela primeira vez em Poggibonsi (1998), os Dormienti ganharam trajetórias diversas, inclusive em contextos internacionais. Notoriamente, a instalação na Roundhouse de Londres (1999) contou com uma colaboração sonora de Brian Eno, que compôs uma faixa a acompanhar a visita — trilha que será reativada nesta mostra milanesa, ressuscitando o encontro fecundo entre escultura e som. Essa afinidade interdisciplinar reforça a postura de Paladino como artista que pensa em camadas, em diálogos entre formas, ruídos e memórias.

Esteticamente, os corpos remitem, em primeiro olhar, aos restos imóveis de Pompeia e Ercolano — habitantes petrificados pela catástrofe — e, ao mesmo tempo, ecoam os desenhos de Henry Moore sobre pessoas encolhidas em abrigos durante a Segunda Guerra. Não se trata de uma retomada literal, mas de um reframe: as figuras não são apenas vestígios, são sonhos recriados, potenciais de silêncio que insistem em falar.

O percurso se inicia idealmente em uma sala oculta adjacente à Sala Stirling — um gabinete que guarda quinze grandes desenhos inéditos datados de 1973, preservados no arquivo. Esse núcleo sobre papel oferece ao visitante a chave de leitura para as esculturas: traços, intenções e uma origem gráfica que atravessa décadas até materializar-se na terracota.

Ao colocar os Dormienti em diálogo direto com a arquitetura de Palazzo Citterio, a mostra propõe uma reflexão sobre a condição contemporânea do habitar e do lembrar. Como toda grande exposição, ela funciona como um espelho do nosso tempo: revela o roteiro oculto da sociedade — entre proteções e vulnerabilidades — e nos solicita uma escuta atenta aos silêncios, às pausas e aos ressonantes interstícios entre arte, som e espaço.

Visitar é, portanto, atravessar um espaço de sonho compartilhado, onde a obra atua como catalisador de memórias coletivas e microhistórias pessoais. Paladino confirma aqui sua capacidade de transformar matéria e arquitetura em dispositivo narrativo, reafirmando-se como um dos protagonistas imprescindíveis do cenário contemporâneo.