Miracolo a Milano: o kolossal do Piccolo que lotou o Strehler chega à TV — um espelho cultural da cidade

Espetáculo 'Miracolo a Milano' lotou o Strehler e chega à Rai5; montagem de Claudio Longhi une memória, comunidade e celebração do Piccolo.

Miracolo a Milano: o kolossal do Piccolo que lotou o Strehler chega à TV — um espelho cultural da cidade

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Miracolo a Milano: o kolossal do Piccolo que lotou o Strehler chega à TV — um espelho cultural da cidade

Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura rito urbano e celebração teatral, encerraram-se no Teatro Strehler as 26 récitas todas esgotadas de Miracolo a Milano, a transposição dirigida por Claudio Longhi do clássico cinematográfico de De Sica (1951). O espetáculo, que já emocionou cerca de 25.000 espectadores, estreia agora na tela: vai ao ar na Rai5 no sábado às 21h20 e no domingo às 16h, permanecendo depois em RaiPlay, antes de uma reprise confirmada para a temporada 27-28.

O que se assistiu no palco do Piccolo não foi apenas uma montagem: foi um grande ato de cidade. Com a mesma fé numa fábula mágica que outrora seduziu nomes como García Márquez e Spielberg e que consagrou sua aura em festivais como Cannes, a obra de Longhi reconstrói, brechtianamente, a Milano del 1951 — um reframe histórico que funciona como espelho do nosso tempo.

Este capítulo reitera um vínculo afetivo entre o Piccolo e a cidade — uma paixão que remete a produções fundadoras, como El nost Milan de Strehler. O espetáculo integra o prólogo das comemorações do octogésimo aniversário do teatro, inaugurado em 14 de maio de 1947 pelo prefeito socialista Greppi, e reforça a noção do teatro como cenário de transformação e memória coletiva.

No público, nomes que contam a própria história cultural de Milão: o prefeito Giuseppe Sala, que fez questão de entregar um buquê a Giulia Lazzarini — atriz que, em 24 de março, celebrou 92 anos em cena —, o arcebispo Delpini, que se viu frente a frente com a dourada Madonnina encenada, a senadora vitalícia Liliana Segre, além dos descendentes das famílias De Sica (Christian e o neto Andrea) e Zavattini (Nicoletta e Valentina Fortichiari).

Artistas e coletivos que são parte do ecossistema teatral milanês também estiveram presentes — de Fracassi a Branciaroli, Jonasson, Marinoni, Lella Costa e o jovem Arlecchino Soleri — assim como representantes de companhias irmãs (Parenti, Elfo) e figuras do circuito cultural como Luca Formenton e Elisabetta Sgarbi. Essa composição plural do público funcionou como um prisma: múltiplos reflexos da cidade que validam o valor simbólico do projeto.

Por trás do aparato cénico houve um trabalho capilar no território. Sob a responsabilidade do diretor-geral Lanfranco Li Cauli e de Claudio Longhi enquanto diretor artístico, a montagem mobilizou alunos da escola do teatro, criando uma mise-en-scène em preto e branco que parece um cartão-postal cine-teatral. Antes e durante as récitas, cerca de cinquenta iniciativas — agrupadas em Aspettando Miracolo a Milano e Oltre la scena — percorreram bairros, escolas, associações e entidades beneficentes, reforçando o caráter comunitário do projeto.

Em suma, Miracolo a Milano virou, por algumas semanas, um roteiro coletivo onde memória, política e encanto se entrelaçam. Ver a peça na televisão é uma oportunidade para ler a cidade como um filme: camadas sobrepostas que revelam o roteiro oculto da sociedade e o eco cultural que o teatro ainda consegue produzir.