Mondrian em destaque: 'Composition III' (1920) vai a leilão na Christie’s em Londres
Obra-prima de Mondrian, 'Composition III' (1920), vai a leilão na Christie’s em Londres durante a Frieze Week, estimada em £20–30 milhões.
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Mondrian em destaque: 'Composition III' (1920) vai a leilão na Christie’s em Londres
Em um movimento que reverbera como um corte seco no roteiro da arte moderna, Composition III, de Piet Mondrian (1872-1944), surge como a peça central da 20th/21st Century Evening Sale da Christie’s em Londres, marcada para 14 de outubro, durante a Frieze Week. Realizada em 1920 e nunca antes oferecida em leilão, a tela — proveniente de uma coleção privada — chega à sala de vendas com uma estimativa entre 20 e 30 milhões de libras (aprox. €23,4–35,1 milhões).
O valor monetário é apenas um dos capítulos dessa narrativa: a obra pertence a um ponto de inflexão na trajetória de Mondrian, quando o artista realizou a transição definitiva da figuração para a abstração geométrica — um novo vocabulário visual que se tornaria, ao longo do século XX, um espelho do nosso tempo e um dos sinais mais reconhecíveis da modernidade. Antes de integrar a coleção privada atual, Composition III passou pelas mãos do arquiteto e colecionador americano Armand P. Bartos e de sua esposa Celeste, que a conservaram entre 1952 e 1973.
Keith Gill, vice-presidente de arte do século XX e XXI da Christie’s, sublinha a importância histórica do trabalho: “Estamos honrados em celebrar a extraordinária herança de Mondrian e em apresentar em Londres este capolavoro de 1920”, reforçando que a tela representa um verdadeiro "momento de virada" na carreira do artista — um reframe estético que ajudou a redefinir o léxico visual do modernismo.
A raridade da peça no mercado torna a venda particularmente significativa. Composition III nunca havia sido submetida a leilão, e a casa considera a obra entre as mais importantes e escassas de Mondrian a chegar ao mercado. O interesse econômico pelo pintor é histórico: em 2009, a Christie’s leiloou trabalhos vindos da coleção dos estilistas Yves Saint Laurent e Pierre Bergé — entre eles, "Composition avec bleu, rouge, jaune et noir" (1922), vendida por US$ 27,9 milhões, e "Composition I" (1920), arrematada por US$ 9 milhões.
O recorde de preço para Mondrian pertence a "Composition No. II" (1930), vendida na Sotheby’s de Nova York, em 2022, por US$ 51 milhões. Mais recentemente, em 2025, a Christie’s obteve US$ 47,6 milhões (taxas incluídas) pela obra "Composition with Large Red Plane, Bluish Gray, Yellow, Black and Blue" (1922), reafirmando o vigor do mercado para o pintor.
Como analista cultural, não vejo esse leilão apenas como uma transação financeira, mas como um pequeno espelho do nosso tempo — um momento em que a economia, a memória e a estética se encontram numa sala de leilões, enquanto o mundo observa como se assiste a uma cena decisiva no cinema. A chegada de uma obra-chave de Mondrian a público remete ao roteiro oculto da sociedade: por que certas imagens tornam-se canônicas, como migraram do estúdio para as paredes de colecionadores e, agora, voltam a ser palco de espetáculo e debate?
O evento marca também a presença continuada do modernismo europeu no mercado transatlântico, e ilustra como peças fundadoras continuam a reescrever valores simbólicos e monetários décadas depois de sua criação. Texto por Chiara Lombardi, com base em apuração de Paolo Martini (ADN Kronos).

