Morre Asha Bhosle, a voz lendária de Bollywood que marcou mais de 12.000 canções
Morre Asha Bhosle, voz lendária de Bollywood; ícone com mais de 12.000 canções faleceu aos 92 anos em Mumbai após infarto.
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Morre Asha Bhosle, a voz lendária de Bollywood que marcou mais de 12.000 canções
Por Chiara Lombardi — Em um dia que parece fechar um capítulo da história sonora do cinema indiano, faleceu aos 92 anos a cantora Asha Bhosle, voz que atravessou décadas e ajudou a definir o timbre de Bollywood. A confirmação da morte veio pelo filho da artista, segundo noticiou a BBC; ela estava internada em Mumbai após sofrer um infarto.
Figura ímpar da cultura popular, Asha Bhosle construiu uma carreira tão vasta que, em números, beira o épico: interpretou mais de 12.000 canções ao longo de mais de oito décadas de atividade, participando de trilhas que se tornaram a trilha sonora da memória coletiva do país. Sua voz — multifacetada, camaleônica — foi o espelho de transformações estéticas dentro do cinema indiano, do bolero romântico aos ritmos mais ousados e urbanos.
Clássicos como Dum Maro Dum, Piya Tu Ab To Aaja e Mehndi Hai Rachnewali não são apenas sucessos: são pontos de referência cultural. A prática do playback, tão central em Bollywood, encontrou na interpretação de Asha uma assinatura capaz de moldar personagens e emoções, como se cada nota formasse um pequeno roteiro paralelo à imagem.
O primeiro-ministro Narendra Modi prestou homenagem, descrevendo-a como "uma das vozes mais icônicas e versáteis da Índia" e lembrando que sua música enriqueceu o patrimônio cultural nacional e emocionou milhões em todo o mundo. Vários nomes do entretenimento também repercutiram a perda: a atriz e política Hema Malini evocou memórias pessoais, enquanto o compositor Shankar Mahadevan afirmou que "cada indiano hoje está de luto" e destacou a durabilidade de seu legado.
Nascida em 8 de setembro de 1933, em uma família de músicos — filha do cantor clássico Deenanath Mangeshkar — Asha Bhosle iniciou cedo sua trajetória artística, estreando no cinema marathi ainda na infância, em 1943. Nos anos 1950 e 1960 consolidou-se como intérprete extremamente versátil, transitando com naturalidade entre boleros, ghazals, bhajans e qawwalis, sempre reinventando sua própria paleta vocal.
Parte crucial de sua história artística foi a colaboração com o compositor R. D. Burman, parceiro criativo que introduziu inovações sonoras e produziu algumas das combinações mais memoráveis entre voz e arranjo em Bollywood. A relação entre os dois teve também dimensão pessoal: foram casados entre 1980 e 1994, ano da morte de Burman.
Sua carreira também viveu sob a inevitável comparação com a irmã mais velha, Lata Mangeshkar, outra lenda cuja ausência, desde 2022, já havia deixado um vácuo. Se Lata foi muitas vezes associada a um canto mais clássico e rígido, Asha encarnou o reframe moderno — uma voz que dialogou com os ventos de mudança do país e do próprio cinema, transformando-se em um eco cultural que resistiu ao tempo.
Ao celebrarmos a obra de Asha Bhosle, somos convidados a olhar além do hit: sua trajetória é um roteiro sobre a evolução estética e social da Índia moderna, uma narrativa em que a música atua como mapa afetivo das transformações coletivas. A sua partida marca o fim simbólico de uma era em que a música de cinema era o centro de produção e circulação de afetos em larga escala.
Em meio aos tributos e à comoção, permanece o que toda grande voz deixa: um catálogo impossível de silenciar. As canções de Asha seguirão rodando nos alto-falantes, nas lembranças e nos reencontros, mantendo viva a presença de quem traduziu em melodia tantas histórias.