Morre Gino Agnese, biógrafo de Marinetti e Boccioni e guardião do Futurismo
Morre Gino Agnese, biógrafo de Marinetti e Boccioni; presidente da Quadriennale de Roma e figura-chave do estudo do Futurismo.
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Morre Gino Agnese, biógrafo de Marinetti e Boccioni e guardião do Futurismo
Por Chiara Lombardi — Morreu em sua casa em Roma, aos 90 anos, o jornalista e ensaísta Gino Agnese. Nascido em Nápoles em 10 de março de 1936, Agnese mudou-se para Roma em 1960 como redator do Secolo d'Italia e consolidou uma carreira que atravessou redações e instituições culturais ao longo de décadas.
Foi enviado especial e editorialista por mais de trinta anos no jornal Il Tempo, e assinou artigos em publicações como Il Messaggero Veneto, Il Giornale e Il Resto del Carlino. Mas foi no universo das artes modernas e contemporâneas, em especial no estudo do Futurismo, que Agnese encontrou seu papel mais distintivo: foi o biógrafo de referência de Filippo Tommaso Marinetti e de Umberto Boccioni.
Em 1990 publicou Marinetti, una vita esplosiva, considerada a primeira biografia completa do fundador do Futurismo. Seis anos depois veio Vita di Boccioni, tratada como a biografia mais completa do artista. Entre outros títulos dedicados ao movimento e aos seus protagonistas, assinou Boccioni da vicino, Marinetti Majakovskij e, nos últimos meses, lançou Il colbacco di Boccioni. A sua obra atua como um espelho crítico: não apenas reconta vidas, mas recompõe o roteiro oculto de uma época que ainda ressoa na nossa cultura visual.
Além da escrita, Agnese deixou marca institucional. Foi presidente da Quadriennale di Roma entre 2002 e 2011, período em que garantiu à Fundação a nova sede na Villa Carpegna, onde hoje estão a Biblioteca e o Arquivo Histórico. Atuou como conselheiro do Palazzo delle Esposizioni e das Scuderie del Quirinale entre 1998 e 2008, contribuindo para a arquitetura cultural da cidade.
Em 1982 fundou a revista internacional de estudos sobre comunicação Mass Media, que saiu bimestralmente por treze anos e contou com colaborações de estudiosos e artistas de renome — de Gillo Dorfles a Tarkovski, passando por Alberto Burri e Antoni Tàpies. A partir de 1992 a revista incorporou copertine d'autore, obras encomendadas a nomes como Bruno Munari e Piero Dorazio, que mais tarde foram reunidas em exposição na Galleria Nazionale d'Arte Moderna e Contemporanea de Roma.
Premiado e reconhecido, Agnese recebeu distinções como o Premio della Cultura da Presidenza del Consiglio dei Ministri (1987), o Premio Hemingway (1997) e outros prêmios nacionais que celebraram sua contribuição à cultura e à crítica. Em 1995 organizou o encontro pioneiro "Bit & Polis" em Montecitorio — uma visão antecipatória sobre como a informática e a rede transformariam cultura e política — quando ainda dirigia a área de Cultura de Alleanza Nazionale sob a presidência de Gianfranco Fini.
A trajetória de Gino Agnese revela o entrelaçamento entre jornalismo, história da arte e políticas culturais: um roteiro que reflete um tempo em que instituições, livros e jornais moldavam o entendimento público sobre arte e memória. Parte-se um protagonista que ajudou a escrever a cartografia do Futurismo e a organizar o patrimônio cultural romano — um legado que persiste como acervo e como narrativa crítica.
Gino Agnese deixa uma obra extensa e um papel institucional que continuará a influenciar estudiosos, curadores e leitores. Seu trabalho permanece como um convite a revisitar o passado com o olhar do presente, como quem reexamina um filme antigo e descobre nele novas imagens do nosso tempo.