Adeus a Gino Paoli: o gigante do cancioneiro italiano morre aos 91 anos

Morreu Gino Paoli aos 91 anos: adeus ao gigante dos cantautores italianos, autor de 'Sapore di sale' e 'Il cielo in una stanza'.

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Adeus a Gino Paoli: o gigante do cancioneiro italiano morre aos 91 anos

Por Chiara Lombardi — A Itália e o mundo da música se despedem de Gino Paoli, que morreu aos 91 anos na madrugada de 24 de março de 2026. Nascido em Monfalcone a 23 de setembro de 1934, Paoli deixa um legado que transcende gerações: canções que atuam como um espelho do nosso tempo e como capítulos fundamentais do roteiro afetivo do pós-guerra europeu. A família comunicou: “Questa notte Gino ci ha lasciato in serenità e circondato dall’affetto dei suoi cari”. Os funerais serão realizados em formato reservado, apenas com familiares presentes.

A partida de Gino Paoli provocou uma onda de homenagens não apenas do universo musical, mas de todo o tecido cultural. Entre as primeiras reações, a Orchestra Magna Grecia de Taranto anunciou a intenção de dedicar ao artista “um projeto musical digno de uma estatura artistica como poucas presenti nel panorama cantautorale italiano”. A iniciativa é, em si, um gesto de preservação: transformar memória em obra coletiva, como se o legado de Paoli fosse um roteiro que continua a ser representado por novos intérpretes e formações.

O maestro Piero Romano, diretor artístico da orquestra, recordou os concertos de dezembro de 2012 no Teatro Orfeo de Taranto e no Teatro Duni de Matera, apresentados sob o título 'Musica...senza fine'. Esses eventos marcaram o retorno de Paoli à interpretação de seus grandes êxitos acompanhado por uma orquestra, com cinquenta instrumentos em cena. Romano destacou que Luis Bacalov, diretor principal da formação e antigo colaborador de Paoli, foi chave para convencê-lo a aceitar o projeto. No palco, além de Paoli, estiveram artistas como Nina Zilli e um trio de jazz com Rosario Bonaccorso (baixo), Roberto Terenzi (piano) e Pasquale Angelini (bateria).

Durante aqueles concertos, músicas que pertencem à memória coletiva — como Sapore di sale, Senza fine e Il cielo in una stanza — ganharam arranjos orquestrais que revitalizaram suas camadas emocionais. É impressionante reparar como algumas canções atravessam décadas sem perder a capacidade de ferir e consolar: na obra de Paoli, o amor é frequentemente apresentado como paisagem e metonímia — luz e quarto, mar e confissão.

Sergio Cammariere, em entrevista à ANSA, chamou Paoli de “um dos maiores da música italiana, um gigante”. Cammariere recordou a colaboração iniciada em 2015, quando compuseram juntos a canção 'Cyrano', gravaram vídeo e rodaram o país em turnê com Danilo Rea e um quinteto. “As canções de Gino permanecerão para sempre na história”, afirmou, listando títulos que penetram na intimidade do público: Senza fine, Sapore di sale, “Che cosa c'è”, “Una lunga storia d'amore”, “Sassi”.

O prestígio internacional também é parte do perfil de Paoli: Cammariere lembrou que Hoagy Carmichael, um nome da grande tradição americana, definiu 'Senza fine' como uma das canções mais belas da história da música — um testemunho de que o cantor criou não só sucessos, mas um sulco cultural profundo.

Em declarações ao programa BellaMà, da Rai 2, o letrista Mogol evocou a dimensão pessoal e artística de Paoli: “Cantou o amor. É como o sol, irradia, beija e faz bem”. Mogol lembrou ainda do convite feito a Paoli para interpretar 'Il cielo in una stanza' para Mina, gravação que se tornaria icônica.

Agora, com a sua partida, somos convidados a ler a obra de Gino Paoli como um arquivo afetivo que fala tanto da Itália quanto do mundo. Suas canções funcionam como uma semiótica da intimidade: pequenos cenários onde se encenam emoções universais. A música de Paoli mantém a capacidade rara de transformar lembrança em paisagem sonora — um reframe da realidade que continuará a ressoar nas salas de concerto, nas rádios e nas memórias de quem cresceu embalado por suas melodias.

Em respeito à família, os detalhes dos funerais não serão divulgados ao público. Enquanto isso, projetos como o anunciado pela Orchestra Magna Grecia prometem transformar luto em celebração artística, reafirmando que o legado de Paoli é, de fato, senza fine.