Morre Julio Le Parc, mestre da luz e do movimento, aos 97 anos
Morre Julio Le Parc, aos 97 anos em Paris; pioneiro da Arte Cinética e Op Art, aguardava retrospectiva na Tate Modern.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Morre Julio Le Parc, mestre da luz e do movimento, aos 97 anos
Faleceu no sábado, 30 de maio de 2026, em Paris, o artista franco-argentino Julio Le Parc, aos 97 anos. A notícia foi confirmada por seu filho, Yamil Le Parc, ao jornal argentino La Nación. Internado nos últimos dias por agravamento de seu estado de saúde, Le Parc morreu no American Hospital, em Paris.
Segundo o filho, Julio Le Parc permaneceu profundamente ligado à sua obra até o fim e aguardava "com grande entusiasmo" a retrospectiva que teria estreia marcada para 11 de junho na Tate Modern, em Londres — uma mostra que pretendia traçar quase sete décadas de um percurso artístico que transformou a relação entre público, luz e movimento.
Nascido em 23 de setembro de 1928, em Palmira, província de Mendoza, na Argentina, Julio Le Parc mudou‑se ainda jovem para Buenos Aires, onde iniciou sua formação artística. Influenciado pelos grandes murais e pelo ambiente das vanguardas latino‑americanas, e especialmente pela obra de figuras como Antonio Berni, Le Parc desenvolveu desde cedo a convicção de que a obra de arte deveria dialogar diretamente com o espectador — não apenas ser vista, mas vivida.
Uma bolsa do governo francês, concedida em 1958, marcou uma virada decisiva: ele estabeleceu‑se em Paris, cidade que seria o epicentro de sua atividade e de suas experimentações. Em 1960, Le Parc foi um dos impulsionadores do grupo GRAV (Groupe de Recherche d'Art Visuel), coletivo que buscava romper com a tradição e explorar novas formas de percepção visual, propondo que a obra deixasse de ser um objeto passivo para se tornar um evento sensorial.
O trabalho de Le Parc se situa no cruzamento entre a Arte Cinética e a Arte Óptica (Op Art), mas ultrapassa rótulos: suas instalações combinavam luz artificial, movimentos mecânicos, superfícies refletivas e configurações geométricas em transformação, concebidas para ativar o corpo e a atenção do visitante. Em suas peças, sequências geométricas e dispositivos luminosos produzem efeitos que mudam conforme o ângulo e o deslocamento do observador — a percepção vira, assim, matéria da obra.
Esse pioneirismo teve reconhecimento internacional: em 1966, Le Parc recebeu o Grande Prêmio de Pintura na Bienal de Veneza, consagrando‑o como uma das vozes centrais da arte contemporânea do pós‑guerra.
Como analista cultural, é impossível não ver em sua trajetória um espelho do nosso tempo: a obsessão pela luz, pelo movimento e pela participação remete ao desejo de uma arte que reflita e reconfigure a experiência coletiva. As obras de Julio Le Parc funcionavam como uma espécie de reframe da realidade, onde o espectador, ao deslocar‑se, reconhecia o roteiro oculto das percepções cotidianas.
Seu legado permanece vivo não só nas obras e nos arquivos, mas na influência sobre gerações que consideram a experiência sensorial e a interatividade como elementos centrais da criação contemporânea. A retrospectiva na Tate Modern, mesmo inaugurada sem sua presença, surge agora como um exercício de memória e de reafirmação: mostrar como a luz e o movimento podem continuar a nos ensinar a ver.
Julio Le Parc deixa uma obra que é, ao mesmo tempo, invenção técnica e convite ético — um convite a atravessar a superfície e reencontrar, na mudança, a forma de nos reconhecermos.