Morre Zeudi Araya, ícone do cinema erótico italiano dos anos 70 que se tornou produtora e guardiã da memória do cinema
Morre Zeudi Araya, estrela do cinema erótico italiano dos anos 70; atriz e produtora que preservou memórias do cinema faleceu aos 75 em Roma.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Morre Zeudi Araya, ícone do cinema erótico italiano dos anos 70 que se tornou produtora e guardiã da memória do cinema
Por Chiara Lombardi — A atriz e produtora Zeudi Araya faleceu em sua casa em Roma aos 75 anos, após um período de doença. A confirmação veio por meio de seu filho Michelangelo, fruto do relacionamento com o diretor Massimo Spano, que agradeceu a quem esteve próximo à família com «afeto e discrição». Os funerais serão realizados em caráter privado nos próximos dias.
Nascida na Eritreia — seu nome em tigrínia significa «coroa imperial» —, Zeudi era filha de um homem político e neta de um embaixador etíope em Roma. Um destino que misturava diplomacia e exotismo abriu-lhe portas para o espetáculo: uma participação em uma campanha televisiva do Caffè Tazza d'Oro, em 1972, chamou a atenção do cineasta Luigi Scattini e a lançou no longa La ragazza dalla pelle di luna, que a consagrou como presença central no cinema erótico da década de 1970.
Ao longo dos anos 70, Zeudi transitou entre o folclore popular e a modernidade das telas, trabalhando em títulos como Il signor Robinson, mostruosa storia d'amore e d'avventure — onde interpretou a enigmática «Venerdì» ao lado de Paolo Villaggio —, Giallo napoletano com Marcello Mastroianni, e Tesoromio com Johnny Dorelli e Renato Pozzetto. Foi, por muitos, identificada como um símbolo sexual da sua geração, mas a trajetória de Zeudi sempre foi mais complexa que esse rótulo: uma atriz que soube também reinventar-se nos bastidores.
Em 1983, casou-se com o produtor Franco Cristaldi, figura-chave do cinema italiano, que morreu nove anos depois vítima de um infarto. Com o luto, Zeudi afastou-se parcialmente da frente das câmeras, mas voltou ao universo cinematográfico como produtora, interessada em preservar e recontar a memória das películas que ajudou a definir. Em 2018, participou ao lado de Giuseppe Tornatore da apresentação da versão restaurada em 4K de Divorzio all'italiana, filme produzido por Cristaldi, reforçando seu papel como guardiã de um arquivo afetivo e cultural.
O legado de Zeudi Araya é um espelho do nosso tempo: representa uma temporada do cinema popular italiano, quando o erotismo na tela conversava com mudanças sociais, desejos e tabus. Como observou a subsecretária à Cultura Lucia Borgonzoni, ela «contribuiu para o sucesso de obras do filão erótico, um fenômeno cinematográfico dos anos 70», mas igualmente foi «uma diva capaz de se reinventar como produtora e guardiã de uma memória preciosa».
Ao olharmos para sua passagem, não se trata apenas de evocar a figura pública ou o rótulo de sex symbol, mas de ler o roteiro oculto da sociedade que ela ajudou a refletir: a migração de um rosto vindo da Eritreia para as telas italianas, a transformação de exotismo em profissionalismo, e o papel de quem permanece para preservar as imagens que contam nossa história. Zeudi deixa um rastro cultural que atravessa décadas — e, como todo bom filme que volta e meia reaparece em sessão restaurada, exige que sejamos espectadores atentos ao porquê de sua ressonância.