Nicoletta Polla-Mattiot: como o silêncio se revela o som secreto da vida
Nicoletta Polla-Mattiot explica por que o silêncio é uma revolução: reset emocional, estética e política num livro da Einaudi.
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Nicoletta Polla-Mattiot: como o silêncio se revela o som secreto da vida
Por Chiara Lombardi — Em um mundo que confunde ruído com relevância, Nicoletta Polla-Mattiot propõe um reframe: o silêncio não é um vácuo, mas um terreno fértil onde se inscreve o sentido. No seu novo saggio publicado pela Einaudi, Il silenzio è rivoluzione, a autora — jornalista de carreira consolidada e diretora de publicações — traduz uma experiência de vida em uma tese cultural e política: o silêncio é uma forma de resistência e um mecanismo de reset emocional e cognitivo.
Ao contrário das leituras que associam o silêncio à morte ou ao vazio, Polla-Mattiot, obrigada pela profissão a conviver com o barulho constante da atualidade, defende a ideia do silêncio como um “cheio”: é nele que se definem e compreendem os contornos do ruído que o antecede e o sucede. Esta visão atravessa o livro, que combina reflexões pessoais, pesquisa académica e referências artísticas para construir um verdadeiro roteiro sobre a necessidade de eliminar o supérfluo.
No spartito da vida contemporânea — escreve a autora — desapareceram as pausas. A experiência da pandemia, com cidades aparentemente desertas, trouxe ao primeiro plano a anomalia do silêncio em nossas rotinas e revelou quanto somos desconfortáveis diante dele. Polla-Mattiot retoma estudos que mostram como, entre os países europeus, os italianos vivem o silêncio com maior inquietação: bastam alguns segundos sem estímulos para que surja uma sensação de estranhamento, quase uma paranoia social.
O livro relembra também experimentos inquietantes: indivíduos confinados em uma sala vazia preferiram apertar um botão que lhes aplicava uma curta descarga elétrica a permanecer diante de seus próprios pensamentos — um sinal dramático do quanto fomos treinados a evitar a ausência de estímulos. Para Polla-Mattiot, ensinar o valor do silêncio é hoje uma emergência cultural, especialmente para as gerações mais jovens, sujeitas a um fluxo incessante de informações e a verdadeiras bombas sonoras digitais.
Como professora da disciplina Silenzio e Comunicazione na Università IULM, a autora demonstra que o silêncio pode funcionar como modo de informação e como expressão artística. Não é casual que obras como o famoso 4'33" de John Cage ou várias instalações contemporâneas dependam do silêncio para amplificar o que, de outra forma, passaria despercebido. O silêncio, portanto, é um elemento composicional — uma pausa que permite ao cérebro reorganizar-se e ouvir o que antes estava abafado.
O livro de Polla-Mattiot opera como um espelho do nosso tempo: propõe uma revolução necessária para nos libertarmos do excesso e recuperar uma escuta mais refinada. Não se trata de um apelo místico, mas de uma prática política e estética que tem implicações sociais claras — desde a atenção individual até a forma como pensamos espaços urbanos e mídias.
Ao final, Il silenzio è rivoluzione aparece como um manifesto cultural que nos convida a reparar nas pausas do cotidiano. É um convite a olhar o silêncio não como falta, mas como ferramenta: uma pausa no roteiro acelerado da modernidade que revela, por contraste, o som secreto da vida.


