Nova vida para os ambulacros meridionais do Coliseu: espaço público recuperado em travertino

Os ambulacros meridionais do Coliseu são reabertos como praça com pavimentação em travertino, restaurando a leitura histórica do monumento.

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Nova vida para os ambulacros meridionais do Coliseu: espaço público recuperado em travertino

Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece restaurar não apenas pedras, mas camadas de memória, os ambulacros meridionais do Coliseu foram reabertos como um espaço público renovado. A intervenção, inaugurada hoje, devolve ao monumento uma leitura mais íntegra ao trazer de volta a cota original do piso e revelar fragmentos da antiga pavimentação, antes ocultos pelas intervenções tardio-oitocentistas.

A frente da ação é o Parco Archeologico, que assinou a direção técnica e científica do projeto realizado em parceria com Stefano Boeri Interiors. Segundo Alfonsina Russo, chefe do Departamento para a Valorizzazione del patrimonio culturale do Ministério da Cultura, tratou-se de um trabalho pensado para restituir “uma imagem mais decorosa da praça do Coliseu”, tornando o local digno de uma capital europeia e internacional — não apenas um cenário para turistas, mas uma praça referencial também para os cidadãos romanos.

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O elemento simbólico e material do projeto é a nova pavimentação em travertino, extraído das mesmas pedreiras tiburtinas que forneceram a pedra original do Anfiteatro Flaviano. Essa escolha restitui, aos olhos do visitante, o perímetro dos dois ambulacros que faltavam no fronto meridional do edifício. Historicamente, desde os séculos VI-VII d.C. aquela face meridional — por onde acessava o Imperador — sofreu desabamentos por terrenos aluvionais, terremotos, reutilizações e espoliações, transformando o setor original de pilares e abóbadas que alcançavam cerca de 50 metros de altura.

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Ao longo dos séculos, o setor ganhou uma “segunda vida”: blocos da pavimentação dos ambulacros, com 90 cm de espessura, foram reaproveitados, e espaços interiores passaram a abrigar estábulos, abrigos e cercas, além de terem sofrido nivelamentos durante os grandes restauros oitocentistas. O novo projeto busca recontar essa história sem apagar as camadas posteriores, mas oferecendo ao público uma leitura mais clara do desenho original — um reframe que conjuga arqueologia, paisagismo e um desejo urbano de pertencimento.

Como observadora do zeitgeist cultural, vejo nessa intervenção algo além de conservação: é um pequeno ato de reescrita do roteiro coletivo. A praça devolvida ao piso de travertino funciona como um espelho do nosso tempo, um espaço de encontro entre memória, turismo e vida cotidiana, onde o antigo e o moderno compõem um eco cultural. Reabrir os ambulacros meridionais é, essencialmente, devolver ao Coliseu o direito de ser também praça — um palco público onde se cruzam histórias pessoais e narrativas da cidade.

O novo allestimento promete, portanto, não só encantar os visitantes do mundo todo, como reivindicar um lugar no dia a dia dos romanos, reafirmando o papel do monumento como um patrimônio vivo. A intervenção, cuidadosamente documentada e tecnicamente guiada pelo Parco Archeologico, inaugura uma relação renovada entre passado e presente — uma mise-en-scène que convida à reflexão sobre como preservamos e reabilitamos nossos ícones.

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