Da emergência ao enigma: novas leituras com Luca Cari e Andrea Camilleri nas livrarias
Novidades em livraria: 'Salvare vite' de Luca Cari e 'Le inchieste del commissario Collura' de Andrea Camilleri, retratos do heroísmo e da investigação.
RESUMO ✦
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Da emergência ao enigma: novas leituras com Luca Cari e Andrea Camilleri nas livrarias
Por Chiara Lombardi — Na prateleira onde se cruzam memória coletiva e narrativa íntima chegam, nesta semana, títulos que funcionam como um espelho do nosso tempo. Entre reportagens de campo e fôlego ficcional, destacam-se duas publicações que reconstroem, cada uma a seu modo, o roteiro oculto da sociedade: Salvare vite, de Luca Cari, e Le inchieste del commissario Collura, de Andrea Camilleri.
Publicado pela Mondadori, Salvare vite nasce do testemunho direto de quem acompanhou a dor e a logística das emergências: Luca Cari, dirigente do Corpo nacional dos vigili del fuoco e responsável, desde 2006, pela comunicação em crises na Itália e no exterior. O livro retorna ao instante em que, às 3h36 do dia 24 de agosto de 2016, um terremoto de magnitude 6,0 atingiu o centro da Itália — o sisma de Amatrice — e apagou em segundos aldeias inteiras.
Nas páginas, são os próprios servidores em uniforme que narram dez intervenções realizadas nas primeiras horas após o desastre. Essas vozes não idealizam heroísmos: descrevem o corpo do trabalho — as autopompe que rumam pelas estradas, os escavos, as serras, os puxões e as tasquinhas de sorte que trazem alguém de volta à vida. Mais do que relatar técnicas, o livro dá forma à emoção coletiva e ao lucido coragem desses profissionais que partem sempre com um objetivo único: salvar vidas. É um reframe da realidade onde o leitor acompanha, quase em tempo real, o desenrolar daquilo que se tornará história.
Também nas livrarias, pela editora Sellerio, chega a coletânea Le inchieste del commissario Collura, de Andrea Camilleri. O volume reúne oito narrativas curtas, concebidas a pedido do quotidiano La Stampa, que pediu ao autor concisão jornalística para publicações ao longo do verão de 1998. O crítico Salvatore Silvano Nigro elogia a leveza e a eficácia desses contos: Camilleri transforma a restrição em arte, ofertando uma prosa medida, distendida e, por fim, surpreendente.
O protagonista, o comissário Cecè Collura — amigo e discípulo de Salvo Montalbano — surge em convalescença após receber um tiro que o atinge no fígado. Transferido para uma parte do tempo como comissário de bordo em uma crociera, Collura assume um papel de investigador improvisado, onde a investigação se mistura ao cotidiano do mar e das pequenas sociedades que um navio abriga. As histórias preservam o humor e a sagacidade camilleriana, mantendo o leitor atento aos dessinais sociais que se escondem sob o véu do cotidiano.
Essas duas obras, distintas em gênero e tom, dialogam como dois espelhos: um reflete a urgência e a organização do ato coletivo; o outro, a finesse do caráter humano em microespécies sociais. Para quem busca na livraria algo que vá além do entretenimento, encontrar nesses livros o eco cultural e o sentido histórico é reconhecer que a literatura continua a mapear as linhas de força da nossa época.