Omar Pedrini volta ao teatro: “Saber viver hoje é um ato revolucionário”
Omar Pedrini volta ao teatro com 'Canzoni sul Saper Vivere', espetáculo que ensina a viver em tempos de crise, inspirado em Vaneigem.
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Omar Pedrini volta ao teatro: “Saber viver hoje é um ato revolucionário”
Por Chiara Lombardi — O músico e artista Omar Pedrini retorna aos palcos com uma proposta que transcende o concerto: Canzoni sul Saper Vivere ad uso delle Nuove generazioni é um espetáculo de teatro-canção dirigido por ele, que pensa o presente como um espelho do nosso tempo e convida a plateia a reaprender a viver.
Em turnê com a peça, que permanece em cartaz até 24 de abril, Pedrini desenha um percurso temático que aborda o saber viver frente a um mundo em frangalhos — entre guerras, crises sociais e revoluções digitais — e faz disso um diálogo contínuo com o público. A inspiração vem do Trattato sul saper vivere ad uso delle giovani generazioni, de Raoul Vaneigem, que Pedrini ressignifica em canções que procuram ensinar a viver, não apenas a sobreviver.
“O teatro-canção é um pouco a minha segunda vida, meu plano B”, diz Pedrini. Para ele, esse formato permite aprofundar sensações e pensamentos que o formato de concerto, mais marcado pela energia rock e pela diversão, não contempla por completo. A dramaturgia nasceu depois do álbum Sospeso, que tratava do sentido de suspensão do mundo — um tempo em que estávamos todos com o fôlego contido — e hoje se reacende diante de uma percepção mais aguda de crise nas bases do pensamento ocidental.
Na escrita do espetáculo, Pedrini recorre ao situacionismo e às leituras universitárias de La società dello spettacolo, de Guy Debord, e aos preceitos de Vaneigem sobre não apenas existir, mas saber viver. Há um eco claro entre esse desejo e obras anteriores: com os Timoria ele já havia explorado o registro de sobrevivência em Storie per sopravvivere. Agora, a operação é inversa e mais ambiciosa — ensinar a habitar o tempo.
Pedrini traça, com delicadeza e rigor, a ruptura geracional entre quem nasceu na era analógico-digital e quem já é plenamente digital. “Entre mim e meus filhos não existe apenas uma geração; existe uma época diferente. Para eles, o digital é tão fundamental quanto o fogo ou a roda”, afirma. É essa diferença que motiva o caráter pedagógico do espetáculo: a arte, o cinema e as canções foram seus mapas de sobrevivência e agora funcionam como bússola para outros.
Em tom reflexivo, Pedrini não se restringe ao pessoal: propõe que a cultura seja um instrumento de reconexão social, uma semiótica do viral que pode devolver sentido. Ele admite também a nostalgia dos tempos de banda: “Um último concerto dos Timoria? Seria bonito, mas...”, confessa, deixando no ar o desejo possível e a responsabilidade de seguir adiante em formas que correspondam ao presente.
O espetáculo se coloca, assim, como um roteiro oculto da sociedade — um convite para que a plateia repense hábitos, receba sutilezas e retome a coragem de viver com intenção. Em tempos de incertezas, a proposta é clara: transformar a fratura do contemporâneo em ato creativo e educativo. É o retorno de um artista que recodifica sua trajetória, usando a palavra e a música como lentes para ler o nosso momento histórico.
Para quem busca o entrelaçamento entre música e pensamento crítico, Canzoni sul Saper Vivere ad uso delle Nuove generazioni é uma janela para repensar o que significa, hoje, saber viver.


