Orient Express Venezia: o renascimento de Palazzo Donà Giovannelli em Cannaregio
Descubra o luxo e a história do Palazzo Donà Giovannelli reaberto como Orient Express Venezia, projeto de Aline Asmar d’Amman.
RESUMO ✦
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Orient Express Venezia: o renascimento de Palazzo Donà Giovannelli em Cannaregio
Em Veneza há sempre um lado à primeira vista e um outro, secreto, que age como espelho do nosso tempo — onde o passado revela sinais do presente. No coração de Cannaregio, bairro que preserva a alma veneziana longe do assalto turístico, reabre suas portas um dos mais delicados diálogos entre história e ultra-luxo: o Orient Express Venezia instalado no Palazzo Donà Giovannelli, inaugurado oficialmente em março.
Por fora, nada entrega o que espera além da soleira: a fachada é discreta, em sintonia com o labirinto de calli que abraçam o palazzo erguido no século XV. Mas ao cruzar a porta começa um roteiro que lembra um filme de câmara — cenografia, memória, cor e silêncio. Esta é a primeira vez em quase seis séculos que o palácio funciona como hotel cinco estrelas e como uma verdadeira “residenza d’epoca alberghiera”.
Uma casa que fez a história da Sereníssima
O edifício percorreu ao longo dos séculos as histórias de famílias venezianas notáveis: dos Loredan aos Donà, até chegar aos conti Giovannelli, que o compraram em 1838. No meado do século XIX, o conde Andrea Giovannelli confiou ao arquiteto Giovanni Battista Meduna — o mesmo responsável pelo restauro de Ca’ d’Oro e do icônico teatro La Fenice — a reinterpretação dos interiores. Nas paredes e salas compôs-se uma das pinacotecas privadas mais famosas da Europa, que chegou a abrigar obras como La Tempesta de Giorgione (hoje nas Gallerie dell’Accademia).
A visão que levou oito anos
O milagre estético do restauro tem assinatura contemporânea: a libanesa radicada em Paris, Aline Asmar d’Amman, dedicou ao projeto oito anos de pesquisa e intervenção desde 2018. Seu fio condutor foi a descoberta dos “Colori Persi” de Veneza — tons velados e patinados pelo tempo, pela água e pela luz — que ela não quis reproduzir, mas resgatar. “Ao entrar senti um contato imediato com a beleza pura”, conta a arquiteta. O resultado se lê como uma sequência teatral de ambientes que fazem o hóspede sentir-se a caminhar dentro de um quadro.
Mármores raros convivem com boiseries entalhadas, peles gofradas e sedas moiré que revestem as paredes, em um jogo contínuo de luz e sombra. A marcante escadaria octogonal, coberta por uma abóbada celeste, lembra o roteiro oculto da cidade: cada degrau é uma passagem entre épocas. A antiga Corte del Conte, antes pátio a céu aberto, transformou-se em um salão envolto por veludos e coroado por um lustre de vidro de Murano sob medida. A Calle Meraviglia — passagem interna — conecta a lobby ao jardim, preservando o diálogo íntimo entre interior e água.
Mais do que luxo, o projeto opera como um reframe da memória: o palazzo devolve a Veneza uma camada de significado, mostrando que o entretenimento e o serviço podem ser também instrumentos de preservação e interpretação histórica. Em tempos em que o turismo tende a homogeneizar experiências, a abertura do Orient Express Venezia em Palazzo Donà Giovannelli é um convite à contemplação — um eco cultural que nos lembra por que lugares carregados de história ainda nos provocam.
Chiara Lombardi para Espresso Italia — daquelas conversas que se teriam melhor num café em Milão, com a Sereníssima sempre no horizonte, lembrando que cada projeto de restauração é também um pequeno manifesto sobre quem somos e o que queremos preservar.