Oscar 2026: por que Hamnet é favorito, mesmo com Sentimental Value como obra-prima — previsões de Mereghetti
Previsões dos Oscar 2026: <strong>Hamnet</strong> favorito, <strong>Sentimental Value</strong> emociona; análise cultural e apostas de Chiara Lombardi.
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Oscar 2026: por que Hamnet é favorito, mesmo com Sentimental Value como obra-prima — previsões de Mereghetti
Por Chiara Lombardi — As apostas já circulam como trailers antecipados: é tentador desafiar os céticos que acusam os críticos de viverem em outra dimensão e mergulhar nas previsões dos Oscar 2026. O cenário deste ano tem um protagonista claro nas nomeações e nos boletins de palpite: o musical-horror sobre racismo I peccatori (conhecido também como Sinners) lidera com nada menos que 16 indicações. Mas, se o público e a Academia seguem um roteiro próprio, as surpresas não faltam.
Meu olhar, influenciado pela semiótica do viral e pelo eco cultural que os filmes deixam, aponta com sinceridade para uma contradição apaixonante: o filme que mais me tocou não é, talvez, aquele que vai levar a estatueta máxima. Sentimental Value é, para mim, a obra mais bela e comovente da temporada — um drama familiar que funciona como espelho do nosso tempo, rico em ideias e em ressonâncias afetivas. Raramente um filme sobre conflitos íntimos ofereceu tanto material para reflexão e identificação.
No entanto, jogadas de indústria, gostos institucionais e o perfil do eleitorado da Academia costumam favorecer obras de perfil mais “clássico” e erudito. Por isso, considero plausível que o prêmio de Melhor Filme vá para Hamnet, adaptação shakespeariana cujo hálito literário e protagonismo adulto conversam diretamente com uma fatia importante dos votantes: uma escolha que, no fundo, premia um público cult e uma tradição cinematográfica.
Quando se trata de direção, a disputa que realmente me fascina envolve dois autores que fazem do enquadramento e do trabalho com atores seus argumentos mais fortes: Paul Thomas Anderson e Joachim Trier. Ambos trazem uma autoridade de linguagem e uma elegância narrativa que os destacam do restante da lista. Na minha avaliação, a direção de Anderson em Uma batalha depois da outra tem um equilíbrio formal que lhe dá uma leve vantagem — enquanto Trier tem nesse período um acerto de timbre e originalidade que o coloca certamente no pódio.
Há, evidentemente, fatores externos que podem alterar o curso das previsões. O filme de Ryan Coogler, I peccatori, por exemplo, tem combustível de campanha e apelo produtivo que não podem ser subestimados: quando as forças institucionais se alinham, o eleitorado tende a seguir uma narrativa coletiva, ainda que isso signifique sacrificar algumas sutilezas artísticas.
No campo das atuações, as expectativas são igualmente tensas. O senso comum aponta para Timothée Chalamet, por seu papel em Marty Supreme, como favorito entre os atores masculinos; mesmo assim, torço para que os mais de 10 mil votantes da Academia reconheçam também o trabalho de Leonardo DiCaprio, cuja presença e técnica continuam a marcar a temporada com consistência. Entre as atrizes, a sensação é quase unânime: Jessie Buckley, por sua performance em Hamnet, aparece como praticamente sem rivais — uma interpretação que, além da qualidade técnica, fala diretamente ao imaginário cultural e ao temperamento dramático que a Academia tende a valorizar.
Encerro com uma reflexão que chama a atenção do leitor curioso: a corrida aos prêmios é sempre mais do que proclamar méritos artísticos; é um espelho do Zeitgeist, um roteiro oculto da sociedade. O que Hollywood decide premiar diz tanto sobre cinema quanto sobre identidade cultural, memória coletiva e o balanço entre inovação e tradição. Nesta temporada, o contraste entre o abraço íntimo de Sentimental Value e a elegância literária de Hamnet oferece um mapa fascinante para entender onde a indústria quer se ver refletida.
Salve este texto, acompanhe a transmissão — e observe não apenas quem ergue a estatueta, mas por que a comunidade cinematográfica escolheu fazê-lo. Afinal, os Oscar não são só uma festa: são um indicador do roteiro afetivo que Hollywood quer contar agora.


