Paola Cortellesi celebra Dario Fo no Sistina: o perigo de se levar a sério e a virtude da curiosidade
Paola Cortellesi homenageia Dario Fo no Teatro Sistina, lembrando lições sobre humor, erro e curiosidade no centenário do dramaturgo.
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Paola Cortellesi celebra Dario Fo no Sistina: o perigo de se levar a sério e a virtude da curiosidade
Em uma noite que mais pareceu um plano de cena cuidadosamente escrito para traduzir memória em ação, Paola Cortellesi subiu ao palco do Teatro Sistina para prestar homenagem a Dario Fo no marco do Centenário de Dario Fo. Ao recordar os meses em que atuou ao lado do Nobel, Cortellesi falou não só de companheirismo artístico, mas de ensinamentos que soam hoje como um roteiro ético para quem faz teatro — e para quem pensa a vida como cena.
“Vim esta noite para contar aqueles meses incríveis da minha vida em que, ao lado de Dario, pude aprender coisas fundamentais: o perigo de se levar a sério, o valor do erro, a potência da curiosidade e, com ela, o método para rejuvenescer”, disse a atriz, lembrando que teve a honra de participar da última obra do dramaturgo. Essas palavras assumiram na plateia a tonalidade de um convite para repensar a autoridade e a solenidade: como num espelho cênico, o legado de Fo projeta a necessidade de rir do poder e de restaurar a dignidade dos oprimidos.
A noite foi organizada pela Fondazione Fo Rame, em parceria com o Teatro Sistina, e desenhou-se como uma festa do teatro — muito além de uma simples comemoração. Foi um encontro coletivo de memória, música, palavra e interpretação, onde artistas, amigos e companheiros de caminhada reconstituíram, em fragmentos, a voz crítica e irônica de um mestre que remodelou o palco do século XX.
No palco, além de Paola Cortellesi, passaram nomes como Carlo Petrini, Chiara Francini, Moni Ovadia, Valerio Aprea, Ascanio Celestini e a BandaBardò. A família também marcou presença: Jacopo Fo subiu acompanhado das filhas Mattea e Jael, que conduziram a noite com emoção. A programação foi organizada por Mattea Fo e Stefano Bertea para a Fondazione Fo Rame ETS, com a curadoria artística de Massimo Piparo, diretor do Sistina.
O evento, que teve inclusive circulação de vídeo com o depoimento de Cortellesi, inaugura simbolicamente um ciclo comemorativo que começou em 24 de março e se estenderá até 2029, ano em que se celebrará o centenário de Franca Rame. Essa linha temporal evidencia como a cena política e cultural do casal Fo–Rame permanece como um reframe da nossa contemporaneidade — um roteiro oculto que nos interpela sobre responsabilidade, riso e memória.
Como observadora do zeitgeist, confesso que a imagem de Cortellesi lembrando o mestre funciona como uma metáfora: o teatro, quando bem compreendido, é um espelho que refrata o presente e oferece ferramentas para rejuvenescer a imaginação coletiva. Celebrar Fo no Sistina foi, portanto, mais do que rememorar um nome ilustre. Foi reafirmar uma postura — a de quem não teme a subversão pelo riso e faz da curiosidade um método de resistência.