Paola Greggio e 'Parole su parole': a arte de dar permanência às notícias no tempo

Paola Greggio transforma jornais em relevo com 'Parole su parole' (2015), salvando a fugacidade das notícias e questionando nossa relação com o tempo.

Paola Greggio e 'Parole su parole': a arte de dar permanência às notícias no tempo

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Paola Greggio e 'Parole su parole': a arte de dar permanência às notícias no tempo

Por Chiara Lombardi — Espresso Italia

Em 1º de julho de 2026, a casa de leilões Cambi Casa d'Aste incluiu no catálogo de Arte Moderna e Contemporânea a obra Parole su parole (2015), de Paola Greggio. A peça — criada com papel de jornal e stucco sobre tela — é um gesto claro: transformar o fugaz em espessura, o efêmero em memória tátil. Esse movimento confirma o interesse do mercado por uma pesquisa que faz do linguagem informativa matéria plástica.

Vivemos num ecossistema noticioso calibrado para o instante: toda notícia nasce com prazo de validade. A arte, por sua vez, tem a ambição contrária — desafiar o relógio. No entrelaçar dessas duas temporalidades se encontra a obra de Greggio. Para ela, o tempo não é apenas unidade de medida; é a dimensão onde se moldam memória, identidade e experiência. As palavras do jornal, concebidas para relatar o agora, são também as mais vulneráveis ao desgaste: consumidas em horas, apagadas no dia seguinte.

Artista e profissional da comunicação há mais de quatro décadas, Paola Greggio conhece não só a anatomia da notícia, mas seu destino: a obsolescência. Seu processo transforma essa fragilidade em matéria. Folhas amassadas, coladas e trabalhadas com stucco sobre tela ganham relevo — convertem-se em pele, cicatriz e mapa. O jornal deixa de ser suporte para voltar como superfície e lembrança; a notícia migra da sentença ao objeto. O gesto é quase restaurador: dá permanência a algo programado para desaparecer.

Essa pesquisa se insere na tradição da arte contemporânea que investiga linguagem e comunicação como territórios de investigação. Ao recolocar o jornal no campo plástico, Greggio reabre a conversa sobre autoria, circulação e memória coletiva: o que registramos e o que autorizamos a evaporar. É um exercício de arqueologia emocional — escavar o presente para salvá-lo do esquecimento.

Além do impacto estético, há aqui uma semiótica do viral: palavras que outrora tiveram função informativa voltam a interrogar nossa relação com o tempo e com o consumo de notícias. A obra atua como um espelho do nosso tempo — não apenas mostrando o reflexo, mas fragmentando-o em camadas que pedem leitura cuidadosa. Como num bom roteiro, o que há de oculto entre as linhas diz mais do que o título.

O movimento do suporte para o objeto também reverbera institucionalmente. Enquanto Parole su parole entra no circuito de leilões, outras iniciativas culturais reforçam a sensação de um verão artístico intenso: o DAP Festival em Pietrasanta celebra até 11 de julho coproduções que cruzam dança, arte e música; e o Complexo Museal de Santa Chiara, em San Gimignano, inaugura em 1º de julho a mostra “L’altra galleria”, com programação até 28 de fevereiro de 2027, sinalizando uma agenda que conjuga descoberta e revalorização.

Paola Greggio propõe, em seus relevos de papel, um reframe da realidade informativa: cada folha petrificada é um pequeno monumento contra a pressa. Não se trata de nostalgia, mas de potência crítica — um convite a perceber o roteiro oculto da circulação de sentidos na era digital. Ao transformar notícia em relevo, Greggio compõe um arquivo íntimo do público, e nos obriga a perguntar: quais palavras queremos deixar como herança?

Há, portanto, nesse gesto, uma elegância severa. Como quem assiste a um filme que reconta a história por planos fragmentados, saímos da frente da obra com a sensação de que o tempo foi manipulado: não mais linear e descartável, mas acumulado, preservado e finalmente interrogado.

Chiara Lombardi é analista cultural ítalo-brasileira. Escreve sobre como cinema, artes visuais e tendências moldam a memória coletiva.