Paolo Di Paolo reconta Piero Gobetti: “Volto a Gobetti porque a editoria é civilização”
Paolo Di Paolo revisita Piero Gobetti no centenário: um ensaio sobre editoração, memória e o papel político da publicação.
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Paolo Di Paolo reconta Piero Gobetti: “Volto a Gobetti porque a editoria é civilização”
Por Chiara Lombardi — No centenário da morte de Piero Gobetti, o escritor Paolo Di Paolo volta a contemplar uma das figuras mais luminosas e inquietas do início do século XX italiano com o ensaio Un mondo nuovo tutti i giorni (Solferino). Autor de Mandami tanta vita — terceiro colocado no Strega de 2013 — e organizador da antologia Avanti nella lotta amore mio!, que reúne escritos de Gobetti entre 1918 e 1926, Di Paolo propõe um encontro íntimo entre memória, crítica e biografia: um gesto literário que busca reabrir um diálogo com o passado para interrogar o presente.
Quando questionado sobre o rótulo de «auto-nonfiction» para o novo livro, Di Paolo aceita a expressão como um instrumento útil: o texto foge às taxonomias rígidas ao misturar história, narrativa e fragmentos de memória intelectual. Há nele um autobiografismo contido — não exibicionista — que serve à dialética entre o eu do autor e a figura real de Piero Gobetti. Se o romance lhe permitiu liberdade criativa em Mandami tanta vita, o ensaio privilegia a reconstrução do vivido, das tensões e das dificuldades que atravessaram o jovem editor e ativista.
Uma das imagens mais vívidas do livro é a de Gobetti como editor-artesão. Di Paolo lembra que Gobetti se ocupava de todos os elos da cadeia editorial: ia ao tipógrafo, consultava preços da capa ao papel, encontrava-se com autores, esperava a chegada das cópias e sofria ao descobrir exemplares defeituosos. Eram cuidados quase manuais — e profundamente políticos — que hoje reaparecem nas pequenas editoras independentes. Da atitude de Gobetti, argumenta o autor, o mercado contemporâneo deveria recuperar a ideia de que publicar não é apenas mercado: é responsabilidade pública, pedagogia e incentivo ao conhecimento. Publicar é, portanto, um gesto político capaz de semear um círculo virtuoso entre cultura e economia.
Di Paolo também relembra a histórica relação entre Gobetti e a poesia moderna: foi a sua editora que publicou pela primeira vez Ossi di seppia, de Eugenio Montale. A frase de Montale — «La vera lezione di Gobetti è di non aver lasciato alcuna eredità» — ganha no ensaio uma leitura que respeita a ambiguidade. Gobetti morreu muito jovem, em 1926, aos 24 anos; sua trajetória interrompida não lhe permitiu criar uma escola consolidada. E esse fim abrupto faz com que seja arriscado reivindicar uma herança única sem reconhecer as múltiplas direções em que sua figura foi subsequentemente projetada.
Como em um roteiro que não teve tempo de terminar, a figura de Gobetti tornou-se espelho e pretexto: foi puxada tanto para a direita quanto para a esquerda, declarada mãe da resistência ou da revolução liberal — rótulos que, segundo Di Paolo, empobrecem a complexidade original do seu gesto intelectual. O ensaio propõe, portanto, um reframe: afastar-se das leituras ideológicas prontas para escutar novamente o pulso do pensamento de Gobetti, suas práticas editoriais e seu compromisso com a educação cívica.
Em chave cultural, Un mondo nuovo tutti i giorni atua como uma lente sobre o ofício do editor e sobre o papel público da literatura: não apenas como produto, mas como paisagem de transformação. Di Paolo devolve ao leitor a imagem de Gobetti não como um ícone congelado, mas como um exemplo vivo de como a editoria pode constituir um território ético onde se constrói civilização — uma lição que ressoa, hoje, com especial urgência.