Paolo Valerio, o xamã que transforma ferro em ouro: autobiografia alquímica entre Nápoles e o mundo
Paolo Valerio: o xamã artístico que alisa ferro em ouro simbólico, entre Nápoles, pop art e uma autobiografia por objetos.
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Paolo Valerio, o xamã que transforma ferro em ouro: autobiografia alquímica entre Nápoles e o mundo
Por Chiara Lombardi — Ao percorrer a obra de Paolo Valerio, tem-se a sensação de atravessar um filme em capítulos dispersos: memórias que cedem lugar a deslocamentos do tempo, traumas que se transmitem como relíquias e pequenas epifanias que reencenam o cotidiano. A prática artística de Valerio é rito e jogo, herdeira de Duchamp e em diálogo com a pop art, mas também com uma genealogia que inclui Koons, Hirst, Anselmo e Spoerri. É, sobretudo, uma obra que transforma o ordinário em metáfora, o ferro em ouro simbólico.
No percurso entre objetos e significantes, o artista constrói uma autobiografia por obras: aparições, achados, transmutações que alternam o doce e o ameaçador, o brinquedo colorido e o resto orgânico trazido pelo mar. Suas peças mimetizam a pulsação de uma vitalidade que se recusa ao consumismo; são “espelhos do nosso tempo” onde se lê o roteiro oculto da sociedade — a dialética natureza/cultura que oscila entre resgate e perda.
Visitar a sua casa/museu em Nápoles é como participar de um diálogo íntimo com o artista e com uma alma queer que serve de fio condutor. As instalações distribuem-se como cenas em um palco barroco: cestos ornados, espelhos e lantejoulas que sugerem um estranho culto à imortalidade; pequenas esculturas que elevam o insignificante; restos e objetos encontrados transformados em ícones de precariedade e resistência. Há algo de xamânico nesse método — um gesto que coagula memórias e mitos, que não nega nada e aceita a contradição como matéria-prima.
A analogia com a alquimia é inevitável: Valerio transfigura materiais pobres e enferrujados em narrativas de grande valor simbólico. Esse “falso movimento” a que o artista recorre — sem um ponto inicial ou final claramente definível — cria um universo lateral e contraditório onde o não-senso se organiza e produz sentido. A ironia convive com o rito purificador; o lugar-comum torna-se metáfora; o brinquedo transforma-se em marionete de um teatro que fala de desejo, medo e perda.
O trabalho de Valerio não é mera estética: é um mapa afetivo que registra experiências individuais e coletivas, uma tentativa de retomar o pessoal como selo de existência num mundo que tende à objetificação. As peças, por vezes falantes e falocêntricas, contrapõem-se à repressão e ao preconceito, como se os objetos sussurrassem histórias proibidas e, ao mesmo tempo, universais.
Ao final, sua produção funciona como um espelho trêmulo do presente — um eco cultural que demanda leitura cuidadosa. Como toda boa obra que nos confronta, a arte de Paolo Valerio insiste em não oferecer respostas fáceis; prefere abrir portas, insuflar curiosidade e provocar o espectador a decifrar o roteiro oculto que trama identidade, memória e desejo. É nessa tensão, entre ironia e santidade do achado, que sua prática se revela essencial: um xamanismo moderno que transforma o ferro em ouro — não literalmente, mas como reframe da realidade.