Pif e a fé: ‘... che Dio perdona a tutti’ entre dúvida, política e a comicidade de Fantozzi
Pif explora fé, hipocrisia e humor em '... che Dio perdona a tutti': um filme que questiona o uso político da religião e celebra a comicidade à la Fantozzi.
RESUMO ✦
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Pif e a fé: ‘... che Dio perdona a tutti’ entre dúvida, política e a comicidade de Fantozzi
Por Chiara Lombardi — Em seu novo filme ... che Dio perdona a tutti, Pif retorna ao delicado equilíbrio entre riso e reflexão que já brilhara em La mafia uccide sempre d’estate. A obra conserva aquela leveza – quase um plano-sequência do humor que nos obriga a pensar – e aprofunda agora um tema tão íntimo quanto explosivo: a fé e seu uso público.
Pif, diretor e observador da cena cultural, admite que sua raiz siciliana orienta o olhar. “Não preciso ir longe, nem no tempo nem no espaço”, diz, ao explicar por que tanto a máfia quanto a religião cabem em seu universo cinematográfico: “Com Michele Astori nos divertimos em mergulhar na nossa terra para brincar com coisas profundas. Gostamos de irritar alguém. A máfia não tem senso de humor; esperamos que a Igreja tenha.”
A posição é clara e nuançada: Pif não ataca quem acredita. Pelo contrário: “Como agnóstico, invidio quem crê”, confessa. O desconforto do diretor nasce do que chama de uso impróprio da religião — quando a fé vira adereço político ou escudo de conveniência. Ele aponta quando parlamentares se declaram cristãos, mas vivem uma cristandade de ocasião: “Você não pode ser cristão meio-período. Se pratica uma fé hipócrita, isso tem consequências coletivas. O voto reflete essa incoerência.”
No cinema de Pif, a crítica às instrumentalizações da fé ganha uma cena imaginária que surpreende: ele cita o episódio em que uma figura política recebe um auxílio místico em público — um gesto que, para o diretor, roça o ultraje religioso. Em paralelo, menciona as práticas do ICE como outra forma de profanação do sagrado quando a política se disfarça de devoção.
O enredo do filme explora a oscilação humana: o protagonista parte de um ateísmo declarado e, por motivações íntimas — talvez o amor —, atravessa para um extremismo de fé. Pif reconhece a escolha deliberada dessa cartografia emocional: “Vivemos um tempo que não aceita nuances; as pessoas querem preto ou branco. Usei o extremismo católico como contraponto ao conformismo.”
Sobre Papa Francisco, Pif aponta um paradoxo. Apesar de ser figura polarizadora, o pontífice ressoou com muitos, inclusive com agnósticos: “O Papa aceitava também os agnósticos como eu.” A radicalidade do papado — não no sentido dogmático, mas na intensidade da missão — despertou interesse e diálogo além das fronteiras confessionais.
Na esfera pessoal, o diretor traça um retrato curioso da própria formação: “Culturalmente sou católico, na prática não. Fui educado por freiras e salesianos; vi 'Marcellino pane e vino' várias vezes. Entro num convento e me reconheço no mobiliário, no tom marrom, nos bordados. Me tranquiliza, é de onde venho.” Mas a calma vem acompanhada de inquietação: “É preciso se fazer perguntas. Sempre.”
Paradoxalmente, confessa Pif, Dios — ou o sentido do divino — aparece com mais força agora, enquanto agnóstico, do que quando vivia uma crença por hábito: “Hoje me faço mais perguntas do que quando era cristão por educação.” Essa tensão entre pertença cultural e dúvida reflexiva é, talvez, o eixo narrativo do filme.
Por fim, sobre a comédia ideal, Pif cita uma referência quase atemporal: a figura de Fantozzi, cuja comicidade vinha do sofrimento cotidiano, daquele existir subjugado pela vida. É essa capacidade de transformar aquilo que nos domina em riso interpretado com amargura — o verdadeiro “espelho do nosso tempo”.
Em suma, ... che Dio perdona a tutti não é apenas mais uma sátira: é um reframe cultural que pergunta ao público onde termina a fé íntima e onde começa sua apropriação pública. Filme obrigatório para quem busca entender não só o que rimos, mas por que rimos — e o que isso revela do roteiro oculto da sociedade.