Poena cullei: a crueldade romana que trancava parricidas em um saco com quatro animais vivos
Poena cullei: a pena romana que punia parricidas em um saco com quatro animais vivos — origem, símbolos e trajetória histórica até a Idade Média.
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Poena cullei: a crueldade romana que trancava parricidas em um saco com quatro animais vivos
Por Chiara Lombardi — A história do direito penal romano guarda, como um roteiro sombrio em preto e branco, rituais que são espelhos do nosso tempo sobre culpa, vergonha e simbologia pública. Entre eles, a poena cullei — conhecida como a pena do saco — destaca‑se pela teatralidade punitiva: o condenado era introduzido num saco junto a animais vivos e lançado às águas, depois de sofrer castigos preliminares.
Segundo a tradição, a prática teria sido instituída por Tarquínio, o Soberbo, para punir o decemviro M. Atínio, acusado de divulgar segredos dos ritos civis. A documentação mais antiga que conhecemos aponta para cerca de 100 a.C., ainda que alguns estudiosos defendam raízes mais antigas, quando as famílias — e não as autoridades públicas — aplicavam sanções aos que cometiam parricídio.
No núcleo simbólico da pena, os animais não eram meros enfeites macabros. A inclusão de seres vivos dentro do saco surge com clareza a partir da época imperial. A forma mais conhecida, atestada no século II d.C. sob o reinado do imperador Adriano, descreve o condenado junto de um galo, um cão, uma macaca e uma víbora. Cada espécie carregava um valor semiótico: o galo, feroz e capaz de combater serpentes; a víbora, associada ao parricídio — Plínio relatava que ela não nascia de ovo, mas devorava a própria mãe; o cão, visto como impuro em certos contextos rituais; e a macaca, figura de caricatura humana, traçando um reframe cruel da condição do executado.
Antes do lançamento, o réu podia ser açoitado com a virgis, ter a cabeça coberta com um couro de lobo e ser forçado a calçar zoccoli — elementos que acentuavam a degradação ritual. O saco era então costurado e lançado às águas, técnica que conferia à punição um corte final tanto físico quanto simbólico.
Havia alternativas à poena cullei: a damnatio ad bestias — entrega às feras na arena — ou até o sepultamento vivo, demonstrações de que o espetáculo da morte tinha variáveis conforme época e contexto.
No século III d.C., a pena caiu em desuso, sendo reintroduzida por Constantino, mas apenas com serpentes. Já no período de Justiniano voltou a adotar a fórmula dos quatro animais como pena específica contra o parricida. Com o advento do Império Bizantino, a poena foi gradualmente abolida: o código das Basilika, por volta de 892 d.C., removeu essa punição, substituindo por métodos menos — embora ainda severos — como a morte na fogueira.
Na Idade Média, o cenário se torna híbrido: por um período a pena continuou a aparecer nos registros, mas acabou por ceder lugar a ritos mais simbólicos. Em alguns casos, após a execução, o corpo era colocado em um saco e exposto ou destacado por gestos rituais que lembram a antiga prática, agora transformada em memória punitiva.
Como analista cultural, observo que a poena cullei funciona não apenas como punição, mas como um espelho do imaginário coletivo: um rito que externaliza o medo do desmembramento da ordem familiar e social. A presença dos animais narra, em chave simbólica, o desejo de tornar a transgressão inaudível e abjeta, um cenário de transformação que traduz em imagens a necessidade de purgar o laço rompido entre pais e filhos.
Esses episódios antigos nos convidam a perguntar o porquê das formas de punição: o que queriam dizer as sociedades com sua teatralidade punitiva? E, sobretudo, como esses roteiros ocultos moldaram, através de imagens e ritos, a nossa percepção sobre culpa, memória e justiça?