Por que a Bienal de Veneza ainda encanta — e por que falta novidade (ao contrário do Miart)
Por que a Bienal de Veneza atrai mais público mesmo sem inovação — análise cultural sobre identidade, turismo e o contraste com o Miart.
RESUMO ✦
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Por que a Bienal de Veneza ainda encanta — e por que falta novidade (ao contrário do Miart)
Por trás do brilho e do fluxo crescente de visitantes, a Bienal de Veneza revela uma contradição fascinante: embora o público pareça mais cativo do que nunca, a sensação de novidade permanece escassa. Exceto por dois nomes de grande peso — Marina Abramović e Anish Kapoor — que, como estrelas pop e maestros do espetáculo, utilizam Veneza como o maior palco possível para a arte contemporânea, o panorama curatorial desta edição segue encontrando repetições e arquétipos já conhecidos.
Essa persistente atração, creio, tem razões que ultrapassam o valor intrínseco das obras: é sobretudo um fenômeno sociológico e espiritual. Em tempos onde a experiência psíquica coletiva é permeada por incerteza, ansiedade e aceleração, a arte funciona como uma espécie de tratamento restaurador — um banho simbólico que refresca e reorganiza a psique. Assim como o cinema nos devolve uma narrativa para compreender o presente, a Veneza bienalina oferece um espelho ritual — um cenário onde identidades e nações celebram-se publicamente através da criatividade.
Mas, se olharmos de perto, a mostra reproduz quatro tipos reconhecíveis de presença artística que voltam a se repetir de edição em edição:
- Arte de ambientação turística — híbridos entre moda, luxo e artesanato nacional (exemplificados por países como Omã e Arábia Saudita). São soluções compreensíveis como estratégia de marketing cultural, capazes inclusive de criar atmosferas espirituais que sintetizam heranças e carismas coletivos.
- Instalação pós-moderna de efeito — jogos de descontextualização e justaposição que recorrem a uma estética situacionista/surreal (como lembra o pavilhão do Chile). É o espetáculo da surpresa planejada.
- Expressionismo materico-estrutural — reinvenções ambientais e imersivas que submetem o espectador a atmosferas táteis, exemplos típicos do pavilhão da Índia.
- Obra singela neo-pop — peças autônomas que apostam numa estética de incerteza semântica, tentando fugir do déjà-vu com artifícios de efemeridade da memória coletiva (observáveis em pavilhões como Letônia e Espanha).
Além dessas categorias recorrentes, há outra característica estrutural da Bienal: a crescente irrelevância do tema oficial. Este ano o mote foi "In chiave minore" — um conceito ligado à ideia de soglia (limiar). No entanto, essa retórica temática muitas vezes soa mais como um adereço conceitual do que como uma lente efetiva para ler as obras. A maior parte das peças vive de vida própria; todas são, por natureza, limiares de experimentação. Assim, os rótulos curatoriais se tornam, em grande parte, instrumentos de comunicação e marketing intelectual, mais performativos do que substantivos.
Contrastando com esse panorama, é interessante notar o comportamento de feiras e mostras como o Miart, onde a sensação de novidade e risco curatorial tem se mostrado mais viva. Enquanto a Bienal opera como um grande palco de identidades — uma ópera barroca de nações e marcas culturais —, eventos como o Miart parecem dispostos a testar rotas menos previsíveis, abrindo espaços para investigação mais ousada e emergência de vozes inesperadas.
O que tudo isso nos diz, no nível simbólico? A Bienal de Veneza funciona hoje como espelho do nosso tempo: não apenas reflexo do mercado de arte e da economia da atenção, mas também um ritual coletivo que oferece cura simbólica. É um lugar onde a memória cultural se reencontra e se reencena, onde a identidade nacional é performada em palcos históricamente carregados. A falta de inovação radical não anula seu significado; apenas revela que, num momento histórico de fluxo acelerado, o público busca lugares seguros para se reintegrar psicologicamente.
Em termos críticos, resta exigir mais coragem curatorial e menos slogans temáticos. Queremos menos conforto retórico e mais risco — curadorias que desafiem repertórios consolidados e que tratem a arte contemporânea como laboratório, não só como vitrine. Assim como um filme premiado que nos obriga a reescrever nossa leitura do mundo, a próxima Bienal terá de escolher entre repetir o roteiro conhecido ou reinventar o enquadramento.
Por ora, Veneza mantém seu magnetismo. Mas o roteiro oculto da sociedade pede cenas novas. E o público, cada vez mais exigente, olha atento, esperando que a arte não seja apenas um remédio, mas também um espelho que provoque transformação.
Chiara Lombardi para Espresso Italia