Por que Peter Thiel se identifica com 'La rovina di Kasch' de Roberto Calasso? Um retrato do poder, do sacrifício e da técnica

Por que Peter Thiel admira 'La rovina di Kasch' de Roberto Calasso? Uma leitura sobre poder, sacrifício e a tecnologia como novo rito do controle.

Por que Peter Thiel se identifica com 'La rovina di Kasch' de Roberto Calasso? Um retrato do poder, do sacrifício e da técnica

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Por que Peter Thiel se identifica com 'La rovina di Kasch' de Roberto Calasso? Um retrato do poder, do sacrifício e da técnica

Por Chiara Lombardi - Espresso Italia

É impressionante observar como figuras do poder contemporâneo se relacionam com obras que, à primeira vista, parecem remotas do mundo tecnológico. O enigma aqui é claro: por que Peter Thiel, o bilionário do vale do silício frequentemente descrito como o 'olho de Sauron' — cuja influência atravessa sistemas de pagamento e dispositivos pessoais — nutre afinidade por um livro tão denso e erudito quanto La rovina di Kasch, de Roberto Calasso?

Para responder, convém voltar ao núcleo do livro. Italo Calvino afirmou que a obra fala quase exclusivamente de um político francês singular: o abade Talleyrand. Concordo, e acrescento que Calasso, com sua postura quase esotérica e dionisíaca, revaloriza ao mesmo tempo outra figura: Joseph de Maistre, símbolo do legitimismo contrarrevolucionário. É uma combinação estranha, que revela o roteiro oculto do livro: uma reflexão sobre o sacrifício como princípio constitutivo da realidade e da ordem social.

Calasso não trata do sacrifício em termos meramente religiosos: ele o explora como um ato pós-cristão, neo‑pagão, vedicamente ritual e, por vezes, cruento. Nessa leitura, as dicotomias tradicionais — Revolução versus Tradição — perdem bordas nítidas e tornam-se processualidades dialéticas, polaridades que se aproximam e se tornam complementares. Talleyrand aparece como o camaleão supremo do poder, louvado por sua capacidade de adaptar-se às configurações do Estado, do absolutismo a Napoleão e ao Congresso de Viena. Calasso o eleva como um sacerdote do poder entendido como rito: o cerimonial que se sustenta a si mesmo e que constitui a verdadeira essência do domínio.

Por que isso interessa a Thiel? Porque o livro desenha um mapa onde o Poder — hoje, a forma mais avançada é a Tecnologia — busca substitutos para o sacrifício tradicional. A técnica pode atuar como substituto e, simultaneamente, como rito supremo, exigindo o consentimento das massas que são, na prática, as vítimas desse processo. Essa ambivalência ganha relevância política: a tecnologia não só domina processos técnicos, mas pretende legitimação simbólica, uma face espiritualizada que supera o pragmatismo materialista.

Tal linha de pensamento não é inédita: figuras históricas enfrentaram o dilema entre técnica e sacralidade. A rainha Elizabeth I, por exemplo, articulou sua autoridade com conselheiros como Francis Bacon e John Dee; experiências ocultas e tecnológicas já se entrelaçaram no passado. Hoje, quando um arquiteto da tecnologia admira um tratado sobre sacrifício e rito, acende-se uma questão desconfortável: estamos diante de uma nova liturgia do controle, onde o consentimento e a técnica formam a nova gramática do poder?

Como analista cultural, proponho que essa afinidade não é mero gosto pessoal: é um espelho do tempo. La rovina di Kasch funciona como um espelho no qual a elite do presente pode reconhecer um roteiro que legitima sua ação. Olhar para essa leitura é também rastrear o roteiro do nosso tempo, investigar como a semiótica do viral e a engenharia social praticada pela tecnologia reescrevem antigos ritos em códigos digitais.

Em última análise, se há uma ironia cinematográfica aqui, é que assistimos ao encontro entre o roteiro simbólico de Calasso e os diretores do grande estúdio tecnológico contemporâneo. Não se trata apenas de erudição: é o encontro entre a narrativa do poder e a técnica que a encena. E aí reside o desconforto e a urgência crítica que devemos manter.