Possível segundo acesso na Pirâmide de Micerino é detectado por técnicas não invasivas
ScanPyramids identifica duas anomalias na Pirâmide de Micerino com técnicas não invasivas, sugerindo um possível segundo acesso no interior.
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Possível segundo acesso na Pirâmide de Micerino é detectado por técnicas não invasivas
Por Chiara Lombardi – Espresso Italia
Uma nova leitura do velho enigma de Giza: pesquisadores franco-egípcios indicam a presença de dois indícios de vazios na Pirâmide de Micerino, a menor e mais bem preservada do complexo. A equipe ScanPyramids, coordenada por Khalid Helal, do Universidade do Cairo, empregou um conjunto de métodos modernos e não invasivos que funcionam como um “raio-X” do monumento, revelando sinais que alimentam a hipótese de um segundo acesso interno.
Construída pelo faraó Micerino (Menkaure) durante o período de 2532 a 2503 a.C., a pirâmide foi investigada especialmente na sua face oriental. A sondagem combinou técnicas complementares: ERT (Electrical Resistivity Tomography), GPR (Ground Penetrating Radar) e UST (Ultrasonic Testing). Cada técnica traça um mapa distinto da matéria e dos vazios, compondo um retrato mais confiável sem a necessidade de perfurações.
Os resultados apontam para duas anomalias bem definidas. A primeira está localizada a cerca de 1,4 metros de profundidade atrás da fachada, com dimensões aproximadas de 1,5 metros por 1 metro. A segunda anomalia surge a cerca de 1,13 metros, medindo em torno de 0,9 metro por 0,7 metro. Esses dados, embora robustos, não equivalem à confirmação imediata de corredores ou salas: tratam-se de indícios que tornam plausível a existência de um segundo acesso ou de espaços vazios até então invisíveis.
Como bem ressalta Christian Grosse, professor de testes não destrutivos na Universidade Técnica de Munique, “a metodologia desenvolvida permite tração de conclusões muito precisas sobre a estrutura interna da pirâmide sem causar danos. A hipótese de um segundo ingresso é plausível e nossos resultados representam um passo decisivo rumo à sua confirmação.”
Há algo de poético e político na ideia de abrir novos caminhos numa construção que já é um espelho do nosso tempo: a investigação atual opera como um reframe do passado, onde a tecnologia funciona como lente para reenquadrar narrativas milenares. A combinação de ERT, GPR e UST é, em termos visuais, como sobrepor camadas de filme para revelar cenas ocultas no mesmo roteiro.
Apesar da cautela dos especialistas — pois vazios detectados podem resultar de anomalias naturais, cavidades de assentamento ou mudanças construtivas —, a descoberta evidencia o valor crescente das técnicas não destrutivas em arqueologia. Trata-se de um momento em que a semiótica do viral científico encontra o respeito pela materialidade histórica: procurar sem perfurar, interpretar sem atravessar, iluminar sem quebrar.
Enquanto novas análises e possíveis campanhas de investigação avançam, o mundo assiste a um pequeno, mas significativo, deslocamento no entendimento do conjunto de Giza. A Pirâmide de Micerino volta a nos lembrar que até os textos mais antigos guardam reentrâncias inesperadas — e que a tecnologia pode ser a lupa ética que nos permite ler melhor o roteiro oculto da história.
Foto: Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito