Public Acts: o retorno do Living Theatre a Rocchetta Ligure e o espírito de Dioniso hoje
Public Acts: o retorno do Living Theatre a Rocchetta Ligure, entre rituais coletivos, non-violence e o espírito dionisíaco de Gary Brackett.
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Public Acts: o retorno do Living Theatre a Rocchetta Ligure e o espírito de Dioniso hoje
Por Chiara Lombardi
03 de agosto de 2026
Entre 23 de julho e 1º de agosto, Rocchetta Ligure (AL) acolheu um laboratório intenso do Living Theatre Europe, dirigido há mais de três décadas por Gary Brackett. A experiência voltou a ganhar corpo graças à colaboração com a associação cultural grega Facta non verba, atores locais, a mobilização de municípios, Lions, Rotary e a cooperativa Valli Unite, além do apoio financeiro do programa Erasmus+. Inserido na linha do projeto “l'eredità di Caino”, o encontro reafirmou o potencial ético e estético do Living como prática viva.
O cerne do laboratório partiu de grandes questões — guerra, medo, dinheiro, propriedade e desejo — tratadas com o método característico do grupo: um situacionismo lírico-coletivo que mistura gestos rituais, experimentação sensorial, abraços e danças corais. É nessa alternância entre expressão individual e unidade orgânica que reside o carisma do Living Theatre, uma forma teatral que já dialogou, nos anos 60 e 70, com figuras como o jovem Carmelo Bene e que continua a recuperar, no palco e fora dele, um pathos decididamente dionisíaco.
O público não ficou à margem. Som, contato físico, dissolução de posturas e a liberação da espontaneidade instintiva transformaram espectadores em participantes: uma coreografia de presença que reconfigura as fronteiras entre cena e plateia. Em tempos de cristalização social e adesão acrítica a estereótipos de massa, o fluxo aparentemente informal do Living funciona como uma ritualidade mitopoética — um reframe da realidade que atua como terapia coletiva, devolvendo ao corpo e à comunidade uma pragmática sensibilidade conectiva.
Do ponto de vista cultural, a iniciativa em Rocchetta Ligure é exemplar por sua sinergia entre o local e o internacional: pequenas cidades e redes civis engajadas permitem que práticas históricas de vanguarda continuem vivas e produtivas. A cena teatral aqui atua como espelho do nosso tempo, um roteiro oculto que revela tensões éticas e possibilidades de transformação.
Como analista do zeitgeist cultural, vejo no retorno do Living ao tecido italiano uma confirmação: o entretenimento não é apenas escapismo; é campo de batalha e de cura. Public Acts — a jornada para a não-violência proposta pelo grupo — ressoa como convite para repensar o corpo político e afetivo da experiência humana, encenando, no presente, uma outra forma de pertença.
Rocchetta Ligure, por um breve período, tornou-se palco e laboratório de um teatro que questiona, cura e convoca. A festa dionisíaca, hoje, tem a forma de um experimento coral que nos lembra: a liberdade começa no gesto partilhado.