De Rampini a Currò: novidades em livraria que mapeiam guerra, memória e a geoeconomia

Lançamentos da semana: Rampini analisa a geoeconomia em 'Pane e cannoni' e Currò investiga memória e cinefilia em romance policial.

De Rampini a Currò: novidades em livraria que mapeiam guerra, memória e a geoeconomia

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De Rampini a Currò: novidades em livraria que mapeiam guerra, memória e a geoeconomia

Uma seleção das principais novidades em livraria chega esta semana para quem busca não apenas histórias, mas mapas do nosso tempo. Entre ensaios que decifram as novas guerras e romances que perfuram a memória, as prateleiras revelam um roteiro oculto: o entrelaçamento entre poder, economia e narrativa pessoal. Assino esta curadoria como Chiara Lombardi, observadora cultural que lê o entretenimento como espelho do nosso tempo.

Federico Rampini lança pela Mondadori o ensaio Pane e cannoni, um diagnóstico contundente sobre a crise da globalização e a emergência da geoeconomia. Rampini parte de um diagnóstico simples e inquietante: por três décadas acreditamos estar na era do comércio aberto e da cooperação; essa ilusão acabou. Hoje, observa o autor, a economia fala a linguagem das estratégias militares. O comércio e a tecnologia não são mais terreno neutro: viraram teatro de poder, com dazi, sanções, controle de tecnologias críticas e disputa por recursos energéticos e matérias-primas.

No centro do argumento de Rampini está a constatação de que as cadeias de suprimento se transformaram em instrumentos de pressão geopolítica e que empresas privadas foram arrastadas para a competição entre potências. Generais entram em conselhos de administração; governos reaprendem a política industrial; a soberania e a prosperidade se fundem até virar uma única linha estratégica. É um reframe da realidade: a guerra — em seus múltiplos rostos, do míssil ao chip — volta a ser um vetor definidor do destino ocidental.

Rampini analisa as novas dimensões da rivalidade entre Estados Unidos e China, explica por que a Rússia permanece uma ameaça estratégica e sustenta que a corrida por tecnologias decisivas — inteligência artificial, semicondutores, novas formas de energia — redesenhará os equilíbrios de poder. É um livro que não apenas informa, mas convoca: entender essa fusão entre economia e poder militar é essencial para não repetir os erros de quem subestimou a história em curso.

Pela Rizzoli chega o romance policial Il coltello della memoria, de Franco Currò, que abre uma pequena sala escura da memória coletiva italiana. A cena inicial é precisa e cinematográfica: ao lado do corpo de Alberto Novelli, crítico de cinema outrora célebre e agora esquecido, um bilhete com a frase “Conveniva a tutti”. Um tiro na têmpora sugere suicídio. A polícia não hesita, mas o vice‑comissário Peppuccio Loporto vê no enigma algo que ecoa as promessas falhadas de sua própria juventude.

O romance, com sua trama de segredos, gerações e culpa, funciona como um espelho — uma semiótica do viral da memória individual e coletiva. A investigação se desenrola entre lembranças, cinefilia e a política da década de 1960, questionando quem tem direito à memória e como o esquecimento é politicamente produzido. Pietro, filho de Novelli, representa a herança tortuosa entre pais e filhos, entre estética e responsabilidade.

Estas são amostras de uma safra editorial que não se contenta com o entretenimento fácil: quer reescrever nossa compreensão do presente. Do ensaio geopolítico ao romance que interroga a memória, os lançamentos desta semana oferecem ferramentas para ler o roteiro oculto da sociedade. Leia, portanto, com atenção: os livros muitas vezes dizem o que os jornais ainda não entenderam.

Chiara Lombardi
Espresso Italia — Cultura, comportamento e impacto