Da Rampini a Currò: as novidades em livraria que refletem o novo mapa do poder

Lançamentos: Rampini analisa a geoeconomia em 'Pane e cannoni'; Currò investiga memórias em 'Il coltello della memoria'. Reflexões sobre poder e memória.

Da Rampini a Currò: as novidades em livraria que refletem o novo mapa do poder

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Da Rampini a Currò: as novidades em livraria que refletem o novo mapa do poder

Por Chiara Lombardi — Uma seleção das principais novidades em livraria desta semana que não são apenas lançamentos: são lentes para ler o presente. Entre ensaios, romances e investigações, dois títulos chamam atenção por traduzirem, cada um a seu modo, o espírito do tempo.

Federico Rampini chega às prateleiras pela Mondadori com Pane e cannoni, um ensaio que funciona como um refrão incômodo sobre a passagem da globalização para uma era em que economia e estratégia militar se entrelaçam. Rampini argumenta que a crença de que mercados abertos e cadeias produtivas planetárias tornariam a guerra menos provável foi uma ilusão. Hoje, diz o autor, vivemos a emergência da geoeconomia: um campo de batalha onde comércio, tecnologia, finanças e capacidade militar se sobrepõem.

No livro, Rampini traça com clareza por que a rivalidade entre Estados Unidos e China tende a dominar o século XXI, por que a Rússia permanece uma ameaça estratégica e como a corrida por tecnologias decisivas — da inteligência artificial aos semicondutores, passando pela energia — redesenha equilíbrios de poder. As cadeias de abastecimento deixam de ser meros mecanismos econômicos para virar instrumentos de pressão geopolítica; empresas privadas são convocadas para a competição entre potências; generais e executivos se encontram em conselhos de administração. É um diagnóstico que funciona como um espelho do nosso tempo: o roteiro oculto da sociedade — onde prosperidade e segurança tornam-se faces da mesma moeda.

Do outro lado da vitrine, a Rizzoli apresenta Il coltello della memoria, de Franco Currò, um romance policial que se alimenta da memória cultural e das promessas de uma geração. Ao ser encontrado morto no apartamento em Porta Venezia, o crítico de cinema Alberto Novelli deixa um bilhete: “Conveniva a tutti”. Um tiro na têmpora. A polícia interpreta como suicídio, mas o vicecomissário Peppuccio Loporto — atraído e perturbado pela mensagem — decide investigar. Na busca pela verdade, Loporto reencontra fragmentos de sua juventude e as contradições daqueles que viveram o Maio de 68 e depois foram esquecidos.

Currò tece um enredo onde a memória política e cultural serve como fio narrativo: a investigação não é só sobre um crime, mas sobre rancores, silencios e escolhas não cumpridas. A dinâmica entre o filho de Novelli, Pietro, e o investigador cria um contraponto íntimo e social, evocando a ideia de que livros e filmes são mapas sentimentais que guardam a história coletiva.

Além desses títulos — e seguindo o espírito do repertório semanal de lançamentos — há menções a outros autors contemporâneos e ensaios que prometem continuar a conversa sobre tecnologia, poder e memória. Em tempos nos quais o mercado editorial atua como uma espécie de arquivo público do nosso imaginar coletivo, esses livros se destacam por oferecerem não apenas informação, mas ferramentas para interpretar o presente: o cenário de transformação em que vivemos.

Se olhar para a prateleira é também ler o tempo, Pane e cannoni e Il coltello della memoria são leituras obrigatórias para quem quer entender o roteiro por trás das manchetes e as reverberações íntimas das grandes mudanças.