Quando um refrão diz mais que discursos: Sal Da Vinci, Sanremo e o som da Itália contemporânea

Como o refrão de Sal Da Vinci em Sanremo virou símbolo cultural e político da Itália contemporânea.

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Quando um refrão diz mais que discursos: Sal Da Vinci, Sanremo e o som da Itália contemporânea

Há momentos em que uma música funciona como um espelho do nosso tempo: refrões que condensam memórias, costumes e dúvidas coletivas com a precisão de um plano-sequência. É esse o fenômeno que observamos em torno de Sal Da Vinci — nome artístico de Salvatore Michael Sorrentino, 56 anos — e seu triunfo no Festival de Sanremo com "Per sempre sì".

Na abertura de Stasera... che sera!, Sal evocou com simplicidade a própria trajetória: “Dalla Torretta, il quartiere dove sono nato, a piazza del Plebiscito ci ho messo quasi cinquant’anni”. Nessa frase, há o roteiro íntimo de um cantor e, ao mesmo tempo, a cartografia afetiva de uma Itália que ainda se orienta por tradição e afeto local. Depois da vitória em Sanremo, o concerto napolitano foi reapresentado pela Canale 5, e Sal — como o amigo Gigi D’Alessio — mostrou a imagem do profissional experiente e da pessoa de boa índole. Pela mesma razão, apareceu também em Sanremo Top, em Rai1.

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Para compreender os contornos desse universo, confesso que recorri ao formato aparentemente menor de Il castello delle cerimonie, em Real Time: um reality que, lido como um espelho, ajuda a reconhecer o tecido social sem a necessidade de trabalhos sociológicos complexos. Abaixo de uma película de modernidade, revelam-se tradições arcaicas — especialmente em torno do ritual matrimonial — e é aí que se liga o sentido profundo de "Per sempre sì".

O episódio cultural ganhou, porém, uma dimensão política quando a canção passou a ser usada como jingle em uma campanha referendária sobre a justiça. O gesto acendeu debate: símbolos musicais podem ser apropriados como slogans. Se a meta fosse equilibrar o jogo simbólico, bastaria recorrer a "Noi no" de Claudio Baglioni — construída sobre a repetição obstinada do no — embora a própria história da canção italiana já registre um Noi no anterior, cantado por Adriano Celentano.

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O ponto, porém, é mais amplo: nas canções de hoje se concentra um dos sons mais reconhecíveis da Itália contemporânea, uma mistura densa de história, costumes e psicologia coletiva. Muitas vezes, um refrão parece mais incisivo do que discursos políticos longos e confusos. Duas sílabas — “perché sì” ou “perché no” — servem como explicação perfeita no sentido de que, na verdade, não explicam nada, mas funcionam como atalhos emocionais. É a semiótica do viral aplicada à música.

Dentro desse cenário, imagino duas paisagens sociais com suas trilhas sonoras: ao ceto médio reflexivo — aquela Itália culta que discute muito e decide pouco — continuará a acompanhar-se como colcha de retalhos emocionais a "La cura" de Franco Battiato. Ao ceto medio impulsivo — a Itália desiludida que debate pouco e age — ficará a canção vencedora de Sanremo, com seu refrão direto e resoluto.

Como analista cultural, vejo nesses movimentos musicais mais que entretenimento: vejo um reframe da realidade, um roteiro oculto que indica como as nações se narram e se projetam. Às vezes, um refrão é um espelho mais fiel do que muitos manifestos.

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15 março 2026

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