Ricky Gianco e Gino Paoli: a amizade que moldou o rock italiano e o silêncio da perda
Ricky Gianco relembra a amizade com Gino Paoli: histórias na Ricordi, canções e a dor das perdas que marcaram o rock italiano.
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Ricky Gianco e Gino Paoli: a amizade que moldou o rock italiano e o silêncio da perda
Por Chiara Lombardi — Em uma narrativa que tem a textura de um roteiro íntimo, Ricky Gianco relembra a longa e intensa amizade com Gino Paoli, figura central da música italiana. O encontro que mudou rumos aconteceu em 1960, quando Ricky tinha 17 anos e conheceu Paoli nos escritórios da editora Ricordi. Foi ali, nesse ambiente que parecia um set de filmagem de talentos, que se formou um vínculo que atravessaria décadas.
Ricky conta que, logo no início, pediu a Gino para adaptar ao italiano a canção Let It Be Me, cantada pelos Everly Brothers. O que parecia uma missão simples revelou-se um equívoco curioso: a música, na verdade, era de Gilbert Bécaud. Quando Gino percebeu, devolveu o presente transformado — nasceu "Come un bambino", gravada por ambos numa época em que a editora decidiu batizá-los como "Ricky e Un Altro" — ironia que rendeu boas risadas até hoje.
Naquele escritório da Ricordi também circulavam outros nomes que são hoje marcos: Bindi, Gaber, Tenco, Endrigo e Jannacci. Ricky recorda-se como a mascote do grupo, o mais jovem entre aqueles criadores. Entre conversas e pausas para café, formava-se ali um repertório de ideias, sonhos e debates sobre política — nos quais, admite ele com sinceridade, nem sempre estava à altura das discussões.
A relação com Gino Paoli foi, desde o começo, mais do que profissional. Ricky fala de um “colpo di fulmine”: um afeto fraterno que o acompanhou por toda a vida. Ele esteve presente em momentos íntimos, como quando Gino conheceu Ornella Vanoni na Ricordi — um encontro descrito por Ricky com a delicadeza de quem viu nascer uma cena memorável. E esteve ao lado do amigo em laços familiares: conheceu Anna, primeira esposa de Gino, e acompanhou a vida dos filhos Amanda, Nicolò e Giovanni — de quem Ricky foi padrinho.
A morte de Giovanni, há cerca de um ano, deixou uma marca profunda em Paoli. Ricky recorda frases dolorosas do amigo, como o lamento: “Eu deveria ter morrido, não Giovanni”. Foi um episódio que transformou a alegria do grupo em silêncio coletivo. As perdas continuaram: em 2025, partiu outro amigo querido, Gianfranco Manfredi — com quem Paoli e Ricky assinaram "Parigi a porte aperte". Hoje, diz Ricky, mesmo com amigos que permaneceram, há um sentimento de tristeza que não se traduz em solidão, mas em vazio.
Ricky compartilha também as pequenas idiossincrasias de Paoli — hábitos que viraram memória afetiva. Um deles: antes de dormir, Gino esvaziava os bolsos e deixava as moedas em um cinzeiro ou numa mesa. Ricky acabou adotando esse gesto, um relicário de proximidade, quase um objeto cenográfico de uma convivência longa.
O último encontro presencial entre os dois aconteceu há alguns anos, quando Paoli veio a Milão para lançar um livro. Mais recentemente, Ricky ligou para Paola, esposa de Gino, preocupado com o silêncio do telefone do amigo; quando finalmente conversaram, encontrou um homem cansado. Brincaram que, naquele grupo da Ricordi, restavam apenas os dois — uma legenda melancólica para um tempo que se fecha.
Hoje, ao refletir sobre a trajetória que compartilharam — da emergência do rock italiano às canções que marcaram gerações — Ricky não fala de solidão, mas de uma tristeza profunda. É a sensação de quem, ao apagar a luz no final de um set, percebe que as cenas vividas juntos eram mais do que momentos: eram um espelho do nosso tempo, um roteiro oculto da história cultural italiana.
© Espresso Italia — Chiara Lombardi. Reprodução reservada.