Rosalía pede desculpas por declarações sobre Picasso e reconhece falta de empatia com as mulheres
Rosalía pede desculpas por comentários sobre Picasso, admite falta de empatia com mulheres e reafirma compromisso com o feminismo.
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Rosalía pede desculpas por declarações sobre Picasso e reconhece falta de empatia com as mulheres
Por Chiara Lombardi — Em um desdobrar público que mistura reflexão e responsabilidade, a cantora Rosalía divulgou um vídeo no TikTok para se desculpar pelas declarações feitas durante uma conversa com a escritora argentina Mariana Enríquez no formato Spotify Presents. As falas sobre Picasso reacenderam o debate que sempre acompanha o dilema: como separar o gênio artístico da violência que pode marcar sua vida privada.
No diálogo original, Rosalía havia admitido sua admiração pela obra de Picasso e declarado não conseguir dissociar totalmente o fascínio pela arte de julgamentos pessoais. "Talvez eu não o apreciasse tanto pelas coisas que me contaram, mas não me interessa, eu aproveito o seu trabalho", disse à época, comentário que provocou uma onda de críticas e a levou a rever publicamente sua posição.
No vídeo de retratação, a artista explicou que vinha adiando a resposta porque procurava as palavras corretas. Afirmou não estar em paz com o que disse e que, aconselhada por muitos a se manter em silêncio, sentiu que precisava falar para agradecer quem sempre a apoiou. Admitiu ter tratado do assunto sem conhecimento suficiente — um lapso que, segundo ela, justificou a reação negativa do público.
"Quando você passa tantas horas falando, chega um momento em que talvez diga algo sem sentido. É verdade, eu errei. Vocês têm absolutamente razão. Obrigada por me alertarem", disse Rosalía. Ela ressaltou que pensava que Picasso fosse um homem terrível pelas histórias que circulam, mas não tinha conhecimento de casos concretos de abuso. "Quero pedir desculpas se houve falta de sensibilidade de minha parte durante a conversa com Mariana e pela minha total falta de empatia em relação às mulheres e aos seus relatos", afirmou.
O episódio abre uma pequena fenda no espelho do nosso tempo: a celeuma não é apenas sobre um nome célebre, mas sobre como a cultura contemporânea reavalia ícones à luz de novas narrativas. Como observadora do zeitgeist, fica evidente que o debate artístico é também um roteiro oculto da sociedade — onde memória, testemunho e poder simbólico se chocam.
Além do pedido de desculpas, Rosalía reafirmou seu compromisso com o feminismo. Disse nutrir "apenas amor, respeito e gratidão" por esse movimento e que sua forma de viver, escrever, cantar e se apresentar é profundamente feminista. "Acho que minha posição feminista é óbvia, mas talvez para outros não tenha ficado tão clara", declarou, numa tentativa de reframe que busca alinhar sua trajetória artística com uma postura de solidariedade às vítimas.
O caso ilustra como figuras públicas, especialmente as que ocupam o centro do debate cultural, transitam num campo minado onde a estética encontra a ética. A resposta de Rosalía — pública, medida e cheia de reconhecimento — é, em si, parte desse processo de transformação: uma pequena cena que reflete o enquadre maior de uma sociedade que reescreve seus catálogos de admiração.
Continuaremos observando como esse episódio reverbera no discurso sobre separação entre obra e autor, e como artistas e públicos negociam responsabilidade, memória e arte em tempos de maior sensibilidade às vozes que antes foram silenciadas.


