Samanta Schweblin e Il buon male (Einaudi): seis contos entre o cotidiano e o estranho

Resenha: 'Il buon male' (Einaudi), de Samanta Schweblin — seis contos que transformam o cotidiano em inquietante mágico.

Samanta Schweblin e Il buon male (Einaudi): seis contos entre o cotidiano e o estranho

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Samanta Schweblin e Il buon male (Einaudi): seis contos entre o cotidiano e o estranho

Por Chiara Lombardi — A voz de Samanta Schweblin ganha nas páginas de Il buon male (Einaudi) uma tensão discreta que funciona como um espelho do nosso tempo: o familiar se torna enigma, a palavra alerta, e a dor se transforma em pista. Autora argentina com menos de cinquenta anos, vencedora do National Book Award e do Premio Aena de Narrativa Hispanoamericana, Schweblin volta com uma coletânea de seis contos que desafia o leitor a cada página.

Os textos tratam de temas recorrentes e urgentes — o matrimônio burguês, a ilusão de controle, os laços familiares, a segurança de nossos filhos e a segurança de nossas almas —, mas o que impressiona é a forma: uma escrita de aparente economia que abre espaço ao estranho. Ao terminar um conto, o leitor tende a crer que o seguinte não conseguirá igualar a intensidade; porém, a coleção insiste em contrariar essa expectativa, como se cada peça fosse um reflexo que devolve um reframe inesperado da realidade.

A evocação dos Nove racconti de Salinger vem à mente não apenas pela perspicácia com que Schweblin interpreta a consciência infantil, mas também por sua coragem em tocar no suicídio e na solidão com uma prosa paratática, feita de frases simples que cortam como planos curtos de cinema. É aqui que se revela o seu talento: a capacidade de transformar o cotidiano em superfície translúcida, por onde passa um fantasma — muitas vezes visível só àquele que o sente.

Animais como metáforas, a ansiedade da incomunicabilidade e a morte que ronda a poucos metros compõem a paleta dos contos. A técnica se mostra madura, embora conserve a frescura de um livro de estreia; é possível perceber influências literárias diversas — Carver nos adultos, Salinger nos jovens — e, pela própria autora, referências a Buzzati, Lynch, Bradbury, Cortázar, Silvina Ocampo e Kafka, sem que qualquer um desses ecos apareça como mera imitação.

Chamo esse gesto narrativo de minimalismo mágico: uma economia de meios que se abre ao fantástico sem oferecer explicações, deixando no leitor a tarefa de completar o mosaico. Em certas histórias, a dúvida sobre se os personagens estão vivos ou mortos não é apenas um artifício — é o motor da experiência leitora, uma espécie de corte de cena que transforma a narrativa em sonho.

No conto de abertura, Benvenuta tra noi, pergunta-se sobre uma mulher que interrompe a própria tentativa de suicídio e encontra sentido em um gesto quase ritoso sugerido por um vizinho — a proposta de depenar coelhos. Em L'occhio nella gola, a imagem perturbadora do corpo de uma criança que engole uma pilha converte-se, em nossa imaginação, em um espelho para um telefone que recebe ligações mudas por vinte anos. E que dizer das irmãs que fogem todas as noites da casa de veraneio, enquanto os pais dormem, como se encarnassem a inspiração onírica de uma poeta alcoólatra?

Os contornos do estranhamento em Il buon male não são gratuitos; funcionam como dispositivo para perguntar ao leitor: o que permanece quando o roteiro social falha? Como traduzimos a sensação de perda e a falha na comunicação em imagens que resistem ao tempo? Schweblin não responde de maneira didática. Ela propõe cenas — planos e contra-planos — e nos convida a decifrá-los.

Se há algo que rende este livro a uma conversa mais ampla — e que me faria imaginá-la em diálogo com Fernanda Pivano, curiosa sobre como se evoca a magia — é justamente a maneira com que a autora absorve técnicas do século XX e as devolve descoladas de modas, num resultado que soa atemporal. Ler Il buon male é como assistir a um filme curto e inquietante: cada conto é um take que termina sem cortar por completo, deixando uma reverberação.

Para leitores atentos à semiótica do viral cultural e à narrativa enquanto espelho do psicológico coletivo, este livro oferece não apenas histórias, mas cenários de transformação — pequenos roteiros ocultos da sociedade que se recreiam a cada leitura.