Saviano volta à TV com 'La giusta distanza': crimes, memória e o desejo de trabalhar com Fazio
Roberto Saviano retorna com 'La giusta distanza' na La7: crimes, pentiti e o desejo de trabalhar com Fazio, entre portos e memórias que moldam a narrativa.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Saviano volta à TV com 'La giusta distanza': crimes, memória e o desejo de trabalhar com Fazio
Roberto Saviano voltou às telas com La giusta distanza, programa exibido às quartas-feiras, em horário nobre, pela La7. A proposta do autor e jornalista é, nas suas palavras, contar os crimes e mistérios do país a partir de uma distância que permita ver tanto os fatos quanto as marcas que eles deixam nas vidas das pessoas. Essa distância — um dispositivo narrativo que Saviano diz ter refinado ao longo dos anos — funciona como um espelho do nosso tempo: reflete não só os acontecimentos, mas o roteiro oculto das memórias coletivas.
Sobre o equilíbrio entre proximidade e distanciamento, Saviano confessa que, na vida pessoal, raramente acerta a medida: “ou muito colado, ou muito distante”. No trabalho, porém, afirma ter aprendido a modular essa relação para iluminar histórias complexas sem cair na sensationalism. É essa técnica que guia episódios centrados em figuras-chave da história criminal italiana. Na edição de quarta-feira 18, por exemplo, o foco foi em dois célebres pentiti: o brigatista Patrizio Peci e o mafioso Tommaso Buscetta.
Ao olhar para Tommaso Buscetta, Saviano destaca que o seu arrependimento teve traços de tentativa de reparação de uma vida massacrata pela violência mafiosa: Buscetta, segundo a narrativa, se pentiu também para responder a uma lógica de honra traída pelos Corleonesi, e escolheu colaborar com o Estado. Saviano elogia a estratégia de Falcone em não se prender às motivações íntimas do delatore, focando antes no valor prático de sua colaboração; assim, o drama pessoal se traduz em um ato que altera o curso do combate à máfia.
Quanto a Patrizio Peci, o repentino pedido de perdão tem outra tonalidade: “ele se pentiu para sair da prisão, porque lhe faltava a vida”. A história ganha contornos íntimos com a entrevista — já anunciada — à filha de Roberto Peci, irmão de Patrizio e assassinado pelas Brigate Rosse em retaliação ao acordo deste com a justiça. Saviano revela-se particularmente ligado a essa conversa, que expõe o impacto familiar do pentimento e o trauma das gerações subsequentes, onde gestos e reverências herdadas confirmam um laço trágico com o passado.
O formato do programa é híbrido: intimista e ao mesmo tempo “on the road”. Foi desejo de Andrea Salerno, diretor da La7, que a série ganhasse mobilidade e se ancorasse nos lugares onde os fatos ocorreram. Saviano admite ter temido a exposição do movimento em rua, mas relata-se confortável junto ao mar: episódios foram filmados no porto de Trapani — para tocar a figura de Matteo Messina Denaro — e no porto de Nápoles, rememorando episódios ligados a Salvatore Giuliano. Ficar nos lugares, diz ele, confere à narrativa um significado visceral que nenhum estúdio consegue replicar.
Esse retorno à TV também abriu espaço para reflexões sobre o ecossistema midiático: Saviano percebe em La7 uma herança da velha Rai3, um palco onde é possível desenvolver relatos articulados e monólogos que a grande emissora pública, por vezes, evita. Ele menciona ainda o desejo de retomar o trabalho com Fazio, sinalizando uma vontade de parceria que cruza plataformas — inclusive menções a possíveis colaborações em redes como a Discovery com o mesmo apresentador.
Mais do que entretenimento, Saviano reivindica para seus programas o status de análise cultural: a cobertura da cronaca nera na TV, quando reduzida a mero espetáculo, perde a dimensão de espelho social. A sua missão, afirma, é devolver às histórias criminais o peso das consequências humanas e sociais — transformar a notícia em um reframing da realidade para que o público entenda o que está por trás de cada manchete.
Enquanto o público acompanha as quartas-feiras em La7, Saviano segue calibrando o ponto de vista entre intimidade e perspectiva histórica, convidando o espectador a ver nos casos criminais não apenas o choque do fato, mas o eco cultural que eles deixam — um verdadeiro roteiro da nossa memória coletiva.


