Seis alfabetos do italiano antigo: como hebraico, árabe e outros escreveram nossos volgari
Como hebraico, árabe e outros seis alfabetos escreveram o italiano antigo; projeto ConScrIt de Ca' Foscari recebe ERC Advanced Grant de 2,25M€.
RESUMO ✦
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Seis alfabetos do italiano antigo: como hebraico, árabe e outros escreveram nossos volgari
Na Itália medieval e moderna, o italiano antigo foi escrito muito além do alfabeto latino: por séculos, comunidades de diferentes origens lançaram mão de escrituras próprias para registrar glossas, traduções, poesias, dicionários e até liriche d'amore. Esse fenômeno — conhecido como allografia — revela um mosaico cultural e linguístico que transforma o arquivo textual em um verdadeiro espelho do nosso tempo.
Os seis alfabetos identificados na península são: hebraíco, grego, árabe, armênio, etíope e siríaco, além, claro, do latim. Em muitas ocasiões, minorias étnicas e religiosas usavam suas próprias escritas para transcrever os volgari locali e formas emergentes do italiano — uma prática que deixou um corpus riquíssimo, datando do ano 1000 até 1800, com maior concentração entre os séculos XIV e XVI.
Por que a Itália se tornou um case study tão singular? Segundo o professor Daniele Baglioni, diretor do Departamento de Estudos Humanísticos da Università Ca' Foscari, vários fatores convergem: a posição geográfica no centro do Mediterrâneo; a presença contínua de minorias que, diferentemente de outros países, não foram expulsas; a influência mercantil e política das potências italianas no Levante e no Norte da África; e o papel da Igreja de Roma como referência também para comunidades cristãs orientais. Esse cenário permitiu acompanhar todo o "ciclo vital" das allografias, desde seu surgimento e lenta afirmação até o progressivo declínio.
É revelador comparar a situação com a da Espanha: embora também tivesse tradições allograficas relevantes, a expulsão de judeus e muçulmanos no fim do século XV interrompeu o processo de integração que em outros contextos levaria à obsolescência gradual dessas práticas. Na Itália, o devir histórico foi mais fluido, oferecendo aos pesquisadores uma linha temporal completa.
Essa riqueza documental agora recebe um impulso decisivo: o projeto ConScrIt — Concurring Scripts. Allography in Italy (1000-1800) — da Università Ca' Foscari, coordenado por Daniele Baglioni, foi contemplado com o prestigioso ERC Advanced Grant (call 2025). O financiamento europeu, entre os mais almejados no continente, destina à equipe 2.250.000 euros para um projeto de cinco anos, com um time de sete pesquisadores e doutorandos. Ao todo, 319 vencedores foram anunciados nesta rodada do ERC.
O diferencial do ConScrIt é um método cross-scriptal, ainda pouco explorado, que integra linguística e filologia de diversas línguas e escritas, potenciado pelas humanidades digitais. Trata-se de mapear e comparar tradições escriturais distintas, tanto em termos paleográficos quanto sociolinguísticos, para reconstituir como comunidades escreviam sua própria versão do italiano e dos volgari.
Mais do que um inventário técnico, essa investigação nos oferece um reframe da realidade cultural: os alfabetos são, também, códigos de memória e identidade. Ler esses textos é ler um roteiro oculto da sociedade, onde as escritas funcionam como lentes que revelam contatos, tensões e convivências. No palco da história italiana, a allografia deixa de ser uma curiosidade erudita para se tornar um indicador potente do tecido social e da circulação de sentidos entre Ocidente e Mediterrâneo.