Serena Brancale lança 'Sacro': um álbum sobre família, folclore e a vitória além do pódio de Sanremo
Serena Brancale lança 'Sacro', álbum sobre família, folclore e festa; fala sobre Sanremo, a faixa 'Maria' e o single caseiro 'Bariamore'.
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Serena Brancale lança 'Sacro': um álbum sobre família, folclore e a vitória além do pódio de Sanremo
Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura memória e festa, Serena Brancale apresenta seu novo álbum Sacro, um círculo íntimo que abraça afetos, pesquisa sonora e a coragem de se expor como pessoa além do personagem. O trabalho nasceu ao longo de quatro anos de investigação sobre o vernáculo e o folclore, procurando unir gêneros com uma ambição internacional e um impulso celebratório.
O disco abre com um tributo familiar: a primeira faixa chama-se Maria, nome da mãe, e funciona como um contraponto festoso à balada de Sanremo. A canção final, Bariamore, foi escrita em parceria com a irmã, Nicole, e gravada em casa — crua e despojada, tal como nasceu. Essa escolha de produção transforma o registro em um diário sonoro: a domesticidade vira estética e garante autenticidade.
“Não é um fato religioso”, explica a cantora e multi-instrumentista, “é sacro porque fala da minha família e porque é um trabalho que começou há quatro anos”. Nesse período, diz, houve o encontro entre pesquisa linguística, ritmos do sul e sonoridades latinas: flamenco, salsa e variações dialectais compõem um mosaico que convida ao sorriso e ao movimento.
A passagem pelo Sanremo, com a canção Qui con me, teve um efeito quase terapêutico. Para Brancale, o festival foi “uma semana de maravilha”: uma filha que fala com uma mãe ausente, lágrimas de alegria e a satisfação de ter enfrentado um medo. Aos 36 anos e nascida na Puglia, ela descreve que não queria transformar a experiência em espetáculo de autopromoção, mas sim em um ato de honestidade emocional.
No palco, a presença de Nicole foi decisiva — além de ter dirigido a orquestra, ela foi o apoio emocional na tomada de decisões sobre o repertório. “No palco nos olhávamos; depois daquela semana não foi preciso dizer mais nada”, conta a artista, sublinhando o laço fraterno que atravessa o álbum.
A posição final na competição — o nono lugar — não diminuiu o sentido da empreitada. Brancale recorda com elegância histórica: o nono posto traz lembranças de Mia Martini, que se classificou na mesma posição com Almeno tu nell'universo. Para ela, a música cumpriu seu dever: Qui con me não nasceu para ser um hit radiofônico, mas para dizer algo importante. “Recebo muito amor; as pessoas se veem na fragilidade que cantei”, afirma. Esse retorno, segundo a cantora, é a prova de que a mensagem chegou — e aí está a vitória.
Agora, é tempo de celebração e estrada: o tour começa em 30 de abril em Londres e encerra em outubro na sua Bari natal. Em palco, as atmosferas hispânicas, os diálogos com dialetos do sul e a vontade de viajar musicalmente prometem mostrar que Brancale é, sobretudo, mais do que a balada festivaliera — é uma artista que escolheu sorrir, dançar e partilhar raízes.
No jogo de espelhos entre público e intérprete, Sacro funciona como um espelho do nosso tempo: um roteiro íntimo que se amplia para reverberar, sem artificiais efeitos, o eco cultural de quem escreve a própria identidade em canções.