Splatterpink em Bologna: potência, provocação e o verdadeiro espírito do rock ao vivo
Splatterpink incendiou Bologna com covers irreverentes e a força do industrial math core; novo álbum ‘Dio contro tutti’ anunciado.
RESUMO ✦
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Splatterpink em Bologna: potência, provocação e o verdadeiro espírito do rock ao vivo
Na sexta-feira, 03 de julho de 2026, sob o pano de fundo quase cinematográfico dos trilhos e das obras do parque do Dopo Lavoro Ferroviario (Fuori Gallery 16 – Vecchia Orsa), assistimos a uma noite que funcionou como um espelho do nosso tempo: visceral, barulhenta e absolutamente sincera. Foi ali que os Splatterpink mostraram, novamente, que o rock é linguagem e resistência, não mercadoria cuidadosamente estilizada.
Em um cenário que parecia saído de um filme de cena urbana, a apresentação deixou claro por que estes veteranos do industrial math core dos anos 90 continuam relevantes. Esqueça a estética das vitrines e dos talent shows: o trio é composto por músicos de verdade, que unem técnica, instinto e risco — uma formação com dois baixos, duas vozes e uma bateria que explode em criatividade.
Diego D'Agata, ao baixo e vocais, reafirmou o porquê de ser considerado um dos mais inventivos baixistas experimentais da Itália: linhas que conduzem, rompem e reconstroem as canções. Ao seu lado, Michele Freguglia aporta uma segunda voz e um baixo trabalhado em frequências mais agudas, quase como uma guitarra desafiante; e Csaba Dencs na bateria é um verdadeiro rolo compressor, com fantasia e precisão lunar.
A expressão da banda não é apenas técnica: é performática e irônica. Enquanto executavam covers da chamada “melhor música italiana”, os Splatterpink transformaram temas familiares em bombas sonoras. “Balliamo sul mondo” (Ligabue), “Teorema” (Marco Ferradini), “Piccolo grande amore” (Baglioni) e “Disperato erotico stomp” (Lucio Dalla) perderam qualquer protocolo sentimental e se tornaram incisivos, filtraram-se pela lente da banda e emergiram renovados — mais ácidos, mais tensos e muito mais interessantes.
Entre as faixas, as intervenções de D'Agata flertavam com a stand-up: comentários dissimuladamente corrosivos sobre os autores originais (Ferradini confuso, Baglioni fascinado por jovens inexperientes, o Vasco de outrora em choque com regras e vícios) deram ao set um sabor de sátira crítica. Não era apenas nostalgia: era reescrita, reinterpretação, recontextualização — o rock como reframe da memória cultural.
O repertório incluiu ainda o clássico da banda “Alex” e um avanço do próximo disco, anunciado com ironia e expectativa: Dio contro tutti chega em breve. A experiência ao vivo foi uma chuva de impactos — mudanças de ritmo inesperadas, acelerações abruptas, momentos de suspensão — uma arquitetura sonora que rejeita fórmulas e exige atenção.
Do lado crítico, a noite também serviu para contrastar cenários: enquanto grupos contemporâneos e visualmente “certos” se apresentam como produtos homogêneos, os Splatterpink mantêm a tradição do rock como problema e pregunta. Não há concessões à retórica do mercado; há coragem de desconstruir ícones e de recriar significados.
Para quem viu, foi só um aperitivo do que o novo álbum promete. Para o observador cultural, foi uma lembrança poderosa de que a música pode ser um roteiro oculto da sociedade — e que, quando bem feita, continua a nos cutucar, a incomodar e a revelar o que muitos querem domesticar.