Spritz ganha novo rótulo e entra na grande coleção do nosso Made in Italy: o aperitivo que virou ícone

A origem veneziana do Spritz, sua história com os austríacos e o novo rótulo que reforça o legado do Made in Italy.

Spritz ganha novo rótulo e entra na grande coleção do nosso Made in Italy: o aperitivo que virou ícone

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Spritz ganha novo rótulo e entra na grande coleção do nosso Made in Italy: o aperitivo que virou ícone

Por Chiara Lombardi — 30 de junho de 2026

Quando a moda encontra a memória coletiva, às vezes a novidade é apenas um reflexo bem polido de práticas antigas. É o que acontece com o Spritz, esse aperitivo tão celebrado que hoje adorna comerciais de verão e vitrines de bares, e que agora recebe mais um brand para somar à já vasta coleção do Made in Italy.

Mas o que é, afinal, esse coquetel tão aclamado? A resposta exige viajar no tempo — e em mapa cultural. A palavra Spritz tem origem no verbo alemão spritzen, 'respingar' ou 'aspergir'. A história remonta ao início do século XIX, quando a Veneza da Sereníssima entrou sob a influência austríaca após os acordos napoleônicos e o subsequente controle dos Habsburgos. Os soldados e funcionários do império, acostumados a diluir bebidas alcoólicas, encontraram nos vinhedos locais uma bebida cotidiana: o vinho, o verdadeiro "refrigerante" das populações rurais, que era frequentemente misturado com água para suportar o trabalho no campo.

Ao pedir que o vinho fosse "spritzen" — uma pequena adição de água para suavizar o teor alcoólico — nasceu o nome que atravessou séculos. Nas palavras das memórias e dos costumes populares, o Spritz viveu em bordéis e osterias, nas casas e nas praças, ganhando variações conforme os gostos e os licores disponíveis: uma gota de um cordial aqui, um amaro ali, um toque de Campari ou outros amargos de origem vêneta.

Minha própria infância entre as vinhas do pai Luigi e dos vizinhos traz essas imagens: rostos suados voltando do trabalho, uma jarra de vinho e a frase em dialeto — "Preparame un spriss, nini" — que encarnava costume, comunidade e economia do sabor. Foi com a industrialização, o consumo emergente e o nascimento dos bares modernos que o Spritz começou a se transformar num produto de espetáculo: do caseiro ao comercial, do ritual à imagem de moda.

Hoje, ao vermos um novo rótulo se somar à galeria do chamado Made in Italy, não estamos apenas diante de mais uma marca. Estamos diante de um capítulo dessa narrativa cultural: o aperitivo como síntese de identidade regional, economia simbólica e soft power. A publicidade que associa o coquetel a um liquore de origens vênetas e ao tom vermelho da cocciniglia — lembrando inevitavelmente o Campari — é também parte do roteiro contemporâneo, onde tradição e marketing se entrelaçam.

O fenômeno não é trivial. O Spritz funciona como um espelho do nosso tempo: celebra convivialidade depois de longos períodos de isolamento, transforma memórias locais em produto global e oferece aos consumidores um roteiro sensorial que reivindica autenticidade. Mas há sempre o roteiro oculto: a mercantilização do patrimônio imaterial, a disputa entre autenticidade e standardização, e a eterna pergunta sobre até que ponto um produto popular pode ser protegido como berço cultural.

Assim, enquanto brindamos à chegada de um novo rótulo que soma-se ao catálogo italiano, vale lembrar que o verdadeiro valor do Spritz mora na sua capacidade de contar histórias — das gentes de Veneza às mesas modernas de Milão — e de funcionar como um pequeno espelho das transformações sociais. Que este novo produto saiba honrar essa história e que o público continue a procurar, por trás do copo translúcido e do gelo, a textura profunda de uma tradição.

Em suma: o Spritz permanece um ícone complexo — parte memória, parte indústria — e mais uma vez nos convida a olhar além do rótulo e a interrogar o porquê de sua onipresença. Afinal, o aperitivo não é só um gole; é um frame cultural que nos diz quem somos e como queremos ser vistos.