Steve Kamb e o valor do fracasso: o método PACT para recomeçar
Steve Kamb defende que o fracasso é saudável e apresenta o método PACT para recomeçar: Pausa, Aceitação, Mudança e Tentativa.
RESUMO ✦
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Steve Kamb e o valor do fracasso: o método PACT para recomeçar
Por Chiara Lombardi — O que há de mais humano — e, por extensão, literário — do que o fracasso? Autores como Fitzgerald, Melville e Balzac transformaram a queda em tema existencial, conferindo-lhe uma espécie de dignidade trágica. Hoje, porém, o roteiro dominante parece reduzir a vida a uma única rota: a do sucesso. Steve Kamb, fundador da comunidade digital Nerd Fitness e palestrante em eventos como Google e TEDx, propõe um reframe: falhar não só é inevitável como pode ser parte essencial do recomeço. É esse o eixo de seu livro recém-chegado às prateleiras pela Edizioni ON — "How to try again. Il metodo per ripartire quando le cose vanno a rotoli".
No cerne do livro está a ideia de que o insucesso não é um erro terminal, mas um impulso para a reinvenção. Kamb sintetiza sua prática em um acrônimo prático: PACT — Pausa, Aceitação, Mudança, Tentativa. Primeiro, admitir a queda; depois, aceitar suas consequências; em seguida, imaginar uma nova rota; e, por fim, testar essa rota na realidade. A proposta é tipicamente otimista, com um verniz muito americano: referências a figuras públicas e exemplos culturalmente ligados aos EUA sinalizam que o texto foi pensado para um leitor transatlântico.
Mas o livro, que por vezes se apresenta como um manual de self-help voltado a entusiastas de fitness, dietas e videogames (linguagem cara à comunidade de Kamb), abre fissuras onde se transforma em outra coisa. É nesses momentos que o trabalho ganha densidade cultural: quando a metáfora do mar, repetida ao longo do texto, se converte em um estudo sobre o wayfinding.
O wayfinding é uma arte de navegar sem instrumentos, desenvolvida por povos do Pacífico — no chamado triângulo polinésio que inclui Havaí, Nova Zelândia e Ilha de Páscoa — e nas regiões de Micronésia e Melanésia. Navegar pelas estrelas, interpretar ondas, vento, nuvens e aves: práticas que formaram um conhecimento coletivo transmitido por gerações. Kamb usa essa ancestralidade como metáfora para a possibilidade de ler a vida tal como ela se apresenta, um convite a estar no mundo e a orientar-se pelos sinais reais, não por mapas prontos.
Da mesma forma, quando o autor tangencia conceitos da estética japonesa — o wabi-sabi (aceitação da imperfeição, da transitoriedade e da incompletude) e o kintsugi (a arte de reparar cerâmicas com ouro, tornando a cicatriz uma parte preciosa da peça) —, o manual singra águas mais filosóficas. Nesse ponto, o tomo deixa de ser apenas um guia motivacional e se aproxima de uma reflexão estética: as falhas não precisam ser escondidas; podem, ao contrário, redefinir nossa beleza, como no reparo dourado do kintsugi.
Há, portanto, um movimento ambivalente no livro: exteriormente, um apelo prático para públicos de cultura pop — gamers, praticantes de fitness, seguidores de influenciadores —; em profundidade, ecos de tradições filosóficas e práticas de conhecimento que atravessam oceanos e épocas. Em termos culturais, Kamb oferece um espelho do nosso tempo: vivemos numa era que celebra o sucesso como destino único, mas o roteiro oculto da sociedade revela que o fracasso continua sendo o motor de narrativas pessoais e coletivas.
Como observadora, vejo nesse livro um exemplo de como o entretenimento e a autoajuda dialogam hoje com referências globais — da navegação do Pacífico ao zenismo japonês — para compor um manual de resistência simbólica. Kamb não apresenta uma panaceia; oferece, isso sim, uma estrutura — o PACT — e imagens poderosas, como a bússola sem ponteiros do wayfinding e as rachaduras douradas do kintsugi, que nos lembram: recomeçar é também uma arte, e o belo pode nascer do rompimento.
Em tempos em que a narrativa pública privilegia resultados, ler um livro que reivindica o direito de falhar é exercício de coragem cultural. E talvez seja justamente essa coragem — a de aceitar a falha, desenhar novas rotas e embarcar novamente — que redefine o conceito de vitória.