Subsonica: 30 anos, viagem a Essaouira e 'Terre rare' — o disco que não tem medo de nomear genocídio e neonazismo

Subsonica celebram 30 anos com 'Terre rare', álbum gravado em Essaouira que nomeia genocídio e neonazismo e mistura eletrônica, gnawa e crítica política.

Subsonica: 30 anos, viagem a Essaouira e 'Terre rare' — o disco que não tem medo de nomear genocídio e neonazismo

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Subsonica: 30 anos, viagem a Essaouira e 'Terre rare' — o disco que não tem medo de nomear genocídio e neonazismo

Há uma trajetória que atravessa três décadas e territórios sonoros. Os piemonteses Subsonica celebram 30 anos de estrada com um novo álbum e uma turnê que reitera o papel da banda como espelho crítico do nosso tempo. Foi num antigo laboratório de cinema na Piazza Vittorio, em Turim, que o grupo germinou; é daí que parte o fio condutor até Terre rare, o décimo primeiro trabalho que nasce de um deslocamento físico e simbólico de quase 3.000 quilômetros, entre Turim e Essaouira, no Marrocos.

Gravado em parte com a pulsação local, o disco desafia as regras das plataformas de streaming — que privilegiam singles curtos e estruturas previsíveis. Os Subsonica resistem a esse molde: faixas que frequentemente passam dos três minutos, intros instrumentais e desvios formais reafirmam a aposta de quem quer guiar o ouvinte para um altrove, em vez de alimentar algoritmos. Como diz Max Casacci, cortar esse impulso criativo seria “amputar o sentido de fazer música”. A capa com um portal é metáfora dessa escolha: conduzir para além do gosto pronto.

Serviços La Via Italia — O conteúdo continua após a publicidade.

Continuação do Conteúdo ↘

Os temas são de alcance coletivo, mais do que íntimo. Em «Straniero», com a participação da cantora Tära — italiana de origem palestina — o vídeo transforma a banda em alvo de um videogame de guerra, e a letra desmonta a fobia do diferente, fazendo do repetitivo «bum» uma lâmina sonora que congela. Já «Grida» não hesita: usa explicitamente as palavras genocídio e neonazismo para nomear a brutalidade da indiferença. «As dizemos porque ninguém mais as usa, há pudor em pronunciá-las», afirma Samuel, lembrando que o silêncio também é violência.

Em «Transumanesimo», o alerta é sobre a perda de controle diante da tecnologia. Casacci aprofunda: a Silicon Valley tomou posições políticas, com figuras como Peter Thiel impulsionando tecnologias de vigilância que interessam a estruturas de poder. A canção «Teorie» ironiza os conspiracionistas, mas aponta a desinformação — muitas vezes instrumentada por atores geopolíticos — como o cavalo de Troia desta era: uma máquina que corrompe a democracia e dilui mecanismos de soberania coletiva.

Serviços La Via Italia — O conteúdo continua após a publicidade.

Continuação do Conteúdo ↘

O disco também é um encontro de geografias sonoras. Na capital sonora marroquina, a seção rítmica incorporou instrumentos locais — os guembri (uma espécie de baixo tradicional) e os qraqeb (castanholas metálicas) — que imprimem uma textura que transporta a escuta para outra cartografia emocional. A viagem física tornou-se, assim, um reframe estético: tradições gnawa dialogando com a eletrônica e o rock, como se um roteiro oculto ligasse clubes europeus, praças do Norte da África e a inquietude política do presente.

Quando se pergunta se este é um disco político, a resposta de Samuel é afirmativa, numa definição precisa: política é o modo com que os homens se governam e organizam a vida comum. Cuidar da democracia, hoje, é uma atitude profundamente revolucionária. E esse cuidado é o núcleo que dá coerência a Terre rare, álbum que não busca apenas entreter, mas provocar reflexão — o que o torna, em sua essência, uma obra que se insere no grande cinema da contemporaneidade cultural.

Em suma, os Subsonica oferecem um álbum que resiste à pressa dos streams e à superficialidade das redes. É um trabalho que nomeia o que muitos evitam, que mistura a urgência política com texturas exóticas e que convida o público a atravessar o portal da capa, rumo a um território raro onde a música volta a ser instrumento de pensamento coletivo.

Serviços La Via Italia — O conteúdo continua após a publicidade.

Continuação do Conteúdo ↘