Televisão e Videocrazia: Como o Controle Público e o Entretenimento Remodelam Nosso Vocabulário
Como a televisão transformou vocabulários, identidades e a fronteira entre controle público e entretenimento na era da videocrazia.
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Televisão e Videocrazia: Como o Controle Público e o Entretenimento Remodelam Nosso Vocabulário
06 de abril de 2026
Li com atenção o último livro do crítico televisivo do Corriere della Sera, Aldo Grasso, Cara televisione. Una storia d’amore e altri sentimenti (Raffaello Cortina Editore). A obra vai além do diagnóstico técnico sobre um aparelho: transforma a televisão em espelho — e em moldura — do que somos e do que pensamos ser.
Essa antiga caixa, antes repleta de válvulas e hoje reduzida a uma superfície bidimensional que se projeta para o mundo, não é apenas objeto. É dispositivo de socialização, de instrução, de formação cultural. E, como observa Grasso, também é uma forma sutil de escravidão, um mecanismo suave que atravessa hábitos e expectativas. Recusar-se a assistir, em muitos contextos, equivale a um gesto de snobismo intelectual.
No livro, Grasso organiza um vocabulário contemporâneo que ajuda a decodificar a nossa era. Termos como talk show, telecronaca, crônica negra, cultura, opinionista e reality não são apenas gêneros: tornaram-se nós de uma teia antropológica que rege as relações entre indivíduos e grupos. A televisão — e a sua extensão digital — redefiniu fronteiras entre público e privado, contaminando memórias, práticas e linguagem.
Vivemos cada vez mais dentro de uma tela. A multiplicidade de plataformas apenas amplia a multimedialidade perpétua; o número de espectadores muda, mas a experiência de sermos mediados por imagens e narrativas permanece. Orwell imaginou um mundo de vigilância; hoje, essa hipótese parece ultrapassada: a vigilância é muitas vezes desejada, entretenida, transformada em espetáculo.
Grasso aponta um efeito crucial: a transferência de significados quando um termo migra para a tela. O filtro televisivo distorce, reconstrói e, por vezes, apaga a significação original. Assim, conceitos independentes passam a existir apenas dentro do registro audiovisual — a tal ponto que o que é gravado passa a ser tido como real. Em outras palavras, a televisão converte o Reality em sinônimo de realidade.
Num tempo em que livros, comédias, exposições e até projetos arquitetônicos necessitam da atenção televisiva para confirmar sua visibilidade, a câmera assume papel de testemunha legitimadora. Essa lógica cria fenômenos instantâneos: cantores, escritores, opinionistas, semi-filósofos e pós-jornalistas aparecem e desaparecem segundo a gramática do acontecer televisivo. Todos são sorridentes no «salotto», prontos para serem consumidos e reciclados pelo ciclo mediático.
Como analista cultural, penso na televisão como um roteiro oculto da sociedade: é aí que se ensaia a linguagem de massa, se recalibram afetos e se desenha o vocabulário público. A videocrazia — governança das imagens — não é apenas um quadro técnico, é uma mudança semântica e política. A junção entre controle público e entretenimento cria novos modos de existência coletiva, onde privacidade e democracia precisam ser repensadas.
O convite de Grasso é provocador: reconhecer a televisão como agente formador permite confrontar o que chamamos de “realidade”. É um reframe da realidade que convida o espectador a recuperar autonomia crítica — a olhar para fora e para dentro do espelho midiático. Porque, no fundo, a televisão é mais do que entretenimento; é um cenário de transformação cultural.
Chiara Lombardi - Espresso Italia