Tosca lança Feminae: O feminino como fecundidade, nutrição e refúgio — um álbum que reescreve estereótipos
Tosca lança Feminae: o feminino como fecundidade, nutrição e refúgio. Álbum com colaborações internacionais e série de conversas-concerto.
RESUMO ✦
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Tosca lança Feminae: O feminino como fecundidade, nutrição e refúgio — um álbum que reescreve estereótipos
Por Chiara Lombardi — Em um momento em que a cultura popular se repensa como espelho do nosso tempo, Tosca oferece um reframe sensível e profundo do que significa o feminino. Saiu o novo álbum Feminae, cujo título — sugerido por Renzo Arbore — recupera a complexidade etimológica do termo femmina, libertando-o de leituras superficiais que o empobrecem. É um gesto artístico que busca deslocar o foco do óbvio para o roteiro oculto da sociedade: como representamos e celebramos a presença feminina na música e além.
Para Tosca, o feminino “não significa ostentação ou estéreis reivindicações que podem conduzir à mercificação”. Em suas palavras, a palavra ganha novo peso quando entendida como visão em que fecundidade, nutrição e refúgio — qualidades arquetípicas da mater — se tornam ferramentas para uma outra consciência e uma forma renovada de libertação dos estereótipos. É uma proposta poética e política: o disco quer ser um mapa afetivo que recoloca a maternidade simbólica e o cuidado como impulso transformador, não como mercadoria.
No plano sonoro, Tosca volta a confiar na curadoria musical de Joe Barbieri, responsável pela produção artística, arranjos e adaptações em italiano. O projeto se abre a um elenco internacional de vozes convidadas — de Carmen Consoli e Ornella Vanoni a Maria Bethânia, passando por Sílvia Pérez Cruz, Stacey Kent, Mama Marjas e Cristina Branco — construindo um diálogo entre tradição e contemporaneidade, entre o íntimo e o coletivo. No acabamento instrumental, brilham colaborações como as de Paolo Fresu, Rita Marcotulli e dos Flowing Chords, que dão ao álbum texturas que oscilam entre o jazz, a canção de autor e a música do mundo.
As composições reúnem nomes consagrados e autores contemporâneos: de Pacifico, Jorge Drexler e Gegè Telesforo a Giovanni Truppi, Michele Santoleri, Gnut, Pietro Cantarelli, Fabio Ilacqua, Tony Canto e Ivano Fossati. O repertório dialoga ainda com a memória latino-americana e brasileira, com referências a autores como Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim, reafirmando o álbum como um encontro entre genealogias diversas — uma verdadeira colagem cultural que reflete o eco global da canção.
Anteprima Feminae é o formato escolhido para levar o projeto ao público: uma série de conversaconcerto em que Tosca debate o disco com entrevistadores convidados, transformando o palco num espaço de escuta e de troca. Entre as próximas paradas, no dia 28 de abril há um duplo encontro em Milão, na Cascina Cuccagna (19:30 e 21:30), ao lado do jornalista Peter Gomez. Em 9 de maio, às 12h, a tournée passa por Nápoles, no Complesso Monumentale Santa Maria la Nova, com a participação de La Niña del Sud. E em 20 de maio, às 18h, há um encontro em Palermo, no Al Fresco Bistrot, com Olivia Sellerio.
Mais do que um álbum, Feminae se apresenta como um espelho cultural: convoca o público a repensar representações, a acolher contradições e a reconhecer no cuidado e na beleza modos de resistência. Como analista cultural, digo que este é um disco que opera menos como manifesto estridente e mais como um roteiro delicado de transformação — um convite para ver o feminino como matriz de sentidos, e não apenas como rótulo.
À medida que a música circula e as conversas se desenrolam, permanece a sensação de que estamos diante de um gesto autoral que reescreve símbolos e amplia o vocabulário afetivo do presente. Em tempos de mercantilização dos discursos, Tosca propõe um refinado exercício de memória e imaginação: transformar a ideia de maternidade simbólica em potência pública, um abrigo criativo onde floresce a possibilidade de outra narrativa.