Tutti Fenomeni: o mosaico entre AI, surreal e canção pop em Lunedì
Tutti Fenomeni (Giorgio Quarzo Guarascio) costura AI, surreal e pop em Lunedì; novo álbum e turnê começam no Mi Ami Festival em 22 de maio.
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Tutti Fenomeni: o mosaico entre AI, surreal e canção pop em Lunedì
Tutti Fenomeni, nome artístico de Giorgio Quarzo Guarascio (29 anos), segue moldando um repertório que funciona como um espelho do nosso tempo: fragmentado, hipnótico e curioso. Crescido em um lar de intelectuais — pai engenheiro mineral, irmão economista professor na Sapienza e a namorada Clara estudando filosofia —, ele é um cantautor que começou a escrever rap no colégio e hoje coleciona colaborações e elogios da crítica.
O apelido, meio irônico e com tom popular romano, não é por acaso: «é uma expressão que se usa em Roma, para dizer que todo mundo é extraordinário», conta. Mas por trás do tom provocador, Tutti Fenomeni constrói uma obra notavelmente cerebral. Notado pela cultuada 42 Records, lançou os dois primeiros discos entre 2020 e 2022 e, ao longo do percurso, atraiu convites inusitados — de colaborar com artistas como Kid Yugi e Fulminacci a ser chamado por Pietro Castellitto para atuar no filme Enea.
O terceiro disco, Lunedì, saiu no final de janeiro e tem nome e conceito afiados: o dia em que acreditamos na renovação, «o dia da ilusão do recomeço», como ele mesmo define. Mas a escuta pede outra abordagem: aqui não se trata de buscar um sentido linear. «No meu caso, a obra se faz sozinha: são fragmentos de pensamentos, leituras e sons que eu vou taglia e cuci — recorto e costuro», explica.
Essa costura aparece em faixas como La ragazza di Vittorio, um inventário de práticas afetivas e sexuais que termina com um desejo moderno e inquietante: «a inteligência artificial encontrará uma garota para Vittorio». A intenção é simular o scroll infinito de conteúdos da era digital e pensar a AI como «um ditador gentil» que tende a aplainar diferenças e uniformizar percepções — um comentário que é mais semiótica do que panfletário.
O surreal e o pessoal se encontram também em La felicità del cane, um monólogo interpretado pelo sobrinho de 9 anos que, por pudor, altera o texto para não enfurecer a professora — cena que mistura afeto e uma ironia quase cinematográfica. O álbum fecha com Love Is Not Enough, descrita por ele como uma «distopia newtoniana» com ecos de Battiato e Lennon, um refrão que funciona como fechamento simbólico de um roteiro oculto sobre desejo e fratura emocional.
Apesar da inteligência e originalidade que fariam suas canções bem-vindas em palcos como o Sanremo, Giorgio admite não se sentir pronto para ser avaliado por milhões de italianos na TV: «não é meu objetivo», confidencia. No entanto, o palco vivo lhe sorri: depois de dois shows esgotados no Atlantico em Roma, ele parte para a temporada de verão, com a estreia marcada para 22 de maio no Mi Ami Festival, em Milão.
Como observadora do zeitgeist, vejo em Tutti Fenomeni o trabalho de um artista que usa a canção como lente — não apenas para entreter, mas para refletir a relação entre tecnologia, íntimo e linguagem. Suas músicas são pequenos collages sonoros que convidam o ouvinte a desmontar o que parece óbvio e a encontrar aí um ponto de resistência estética. No fim, Lunedì soa como um mapa de tendências: entre a surrealdade e a precisão conceitual, há um convite a ouvir com atenção o roteiro da nossa contemporaneidade.
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