A última verão de Pompeia: Vesúvio como conclusão de uma crise cultural, não causa única

Zuchtriegel vê o Vesúvio como conclusão de uma crise cultural em Pompeia — leitura ousada que reinterpreta o último verão da cidade.

A última verão de Pompeia: Vesúvio como conclusão de uma crise cultural, não causa única

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A última verão de Pompeia: Vesúvio como conclusão de uma crise cultural, não causa única

Por Chiara Lombardi — Em vez de ceder à tentação melodramática que transforma cidades antigas em meros contos de um relógio regressivo, Gabriel Zuchtriegel escreve como quem vive o sítio arqueológico diariamente: com o olhar íntimo de quem conhece cada afresco e cada grafite. Em Quando os deuses deixaram o mundo. A última verão de Pompeia (Feltrinelli, coleção Scintille, 251 págs., €24), o diretor do Parque Arqueológico de Pompeia propõe uma leitura poderosa e interpretativa da catástrofe do Vesúvio — que não a reduz a um acidente isolado, mas a coloca como o ponto final de uma longa crise social e espiritual.

Nascido em 1981 em Weingarten, no sul da Alemanha, Zuchtriegel estudou arqueologia clássica, pré-história e filologia grega em Berlim e Roma, obtendo doutorado pela Universidade de Bonn em 2010. Depois de dirigir Paestum (2015–2021), assumiu Pompeia em 2021. Essa trajetória não é detalhe: não estamos diante de um historiador distante, mas de quem passa pelas escavações todas as manhãs e supervisiona campanhas de pesquisa — um autor cujo labor de campo molda cada argumento do livro.

A tese central é ousada e até desconfortável: a erupção de 79 d.C. não é a causa primordial do fim de um mundo, mas o clímax de processos já em curso. Zuchtriegel observa sinais repetidos na paisagem urbana e religiosa — estátuas, espaços sagrados e templos — que apontam para o declínio das práticas de matriz grega e para a transformação das divindades em elementos de decoração doméstica. Enquanto o Império Romano se expande e se apoia em mão de obra cada vez mais coercitiva, cresce também uma crise espiritual latente. Nesse vácuo, as formas tradicionais de sacralidade parecem perder força.

Para lançar luz sobre esse quadro, o autor recorre a Lucrécio e ao seu De rerum natura: a natureza deve ser estudada para ser compreendida, e os deuses, embora presentes no imaginário, não mais governam o mundo como antes. É uma leitura que dá ao Vesúvio o papel de fechamento dramático de uma narrativa histórica já iniciada, e não de um improvável protagonista isolado.

O capítulo que compara Dioniso e Cristo é, sem dúvida, o mais provocador. Observando as megalografias da Villa dos Mistérios e da Casa do Tiaso, Zuchtriegel identifica nos rituais dionisíacos elementos que ecoam nos novos cultos cristãos: morte e renascimento, filiação divina masculina e uma presença feminina central na iconografia. A imagem que ele desenha é de uma convivência tensa entre cultos que resistem e uma fé nascente que se espalha; quando a erupção sepulta vidas e espaços, a sensação coletiva pode ter sido a de que os deuses haviam, de fato, abandonado o mundo.

Não faltam capítulos que mergulham na vida cotidiana: o sexo e a moral pública aparecem em afrescos e grafites com visibilidade notável, e os lupanares ganham voz na narrativa arqueológica. Zuchtriegel não ignora a dimensão material do cotidiano — mercados, escravidão, ritos domésticos — e vincula essas parcelas à crise mais ampla que acusa o sistema religioso e político.

O autor sabe que sua hipótese perturbadora encontrará resistência: “Imagino que este livro não será acolhido favoravelmente por alguns colegas”, admitiu ao apresentá-lo em Castellammare di Stabia. Ainda assim, o livro funciona como um espelho do nosso tempo: ao reinterpretar o último verão de Pompeia como o final de um roteiro histórico mais vasto, Zuchtriegel convida o leitor a repensar as narrativas fáceis sobre catástrofes e a considerar as transformações culturais que precedem — e muitas vezes anunciam — rupturas dramáticas.

Leitura indicada para quem busca entender o fim de um mundo como um processo complexo, onde arqueologia, literatura clássica e análise histórica se cruzam como cenas de um filme que insiste em nos revelar o roteiro oculto da sociedade.