Umberto Orsini, aos 92: “Me sinto um sobrevivente que viaja com os fantasmas”

Umberto Orsini, aos 92, em turnê com 'Prima del temporale': memória, palco e legado. Um sobrevivente que viaja com os fantasmas.

Umberto Orsini, aos 92: “Me sinto um sobrevivente que viaja com os fantasmas”

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Umberto Orsini, aos 92: “Me sinto um sobrevivente que viaja com os fantasmas”

Por Chiara Lombardi — Em cena com Prima del temporale, dirigido por Massimo Popolizio, o ator Umberto Orsini celebra a vida e o ofício em uma fala que é também um pequeno manifesto sobre memória, presença e legado. No dia 2 de abril completa 92 anos, idade que ele recebe com a serenidade de quem partilha o ano de nascimento com grandes damas do cinema italiano como Sophia Loren, Giulia Lazzarini e Anna Maria Guarnieri. "Sinto-me protegido pelas mulheres", confessa, com a elegância discreta de quem conhece a história do palco como poucos.

Desde o debut no Festival de Spoleto no verão passado, a peça tem feito turnê e colecionado elogios: "Foram standing ovation por onde passamos", diz Orsini, ressaltando o gesto raro de uma plateia que se levanta para aplaudir. Esse reconhecimento, observa ele, não é mero calor: é a confirmação de uma carreira que transformou o teatro em um espelho do nosso tempo.

Dominar o palco aos 92 anos é, segundo Orsini, mais uma ginástica mental do que física. Memorização, ritmo e articulação permanecem como vitais: "Lembrar tantas palavras por hora e meia é sempre uma bela conquista", afirma. Ele conta, com um toque de humor e melancolia, que ainda não errou uma fala nesta temporada — um feito que mistura disciplina e instinto.

Mas há, na sua afirmação sobre o espetáculo atual, uma nota definitiva: "Acredito que este será meu último espetáculo". Não é superstição nem pessimismo. É o desejo de liberdade performática — em vez de se esconder atrás de perucas, vozes inventadas e posturas impostas, Orsini prefere, noite após noite, ser ele mesmo. Este espetáculo, diz, é algo que vai carregar consigo "até onde der".

Quando usa a palavra "sopravvissuto" — traduzida livremente como "sobrevivente" —, não é para dramatizar a idade, mas para ancorar uma experiência: "Sobrevivi a muitos que tinham a minha idade e já se foram. Esse espetáculo também é uma viagem com os fantasmas". A metáfora de viagens e fantasmas constrói um roteiro oculto da memória coletiva: o teatro como lugar onde o passado se encontra com o presente e onde a história pessoal se reflete no público.

Orsini reafirma a potência do palco para rejuvenescer. Cada entrada em cena dissolve as pequenas fraquezas do corpo: a voz recupera volume, a força nas pernas reaparece e ele atua sem microfone — raridade hoje em dia —, sendo ouvido até nas últimas filas. Há um efeito quase cinematográfico nessa transformação: o palco como lente que reframeia a realidade.

Sobre lapsos de memória, recorda apenas um episódio na juventude, durante uma réplica com Tino Carraro. Na ocasião, Carraro usava um auricular do apontador; Orsini chegou a sugerir que ele o tirasse para ganhar liberdade na interpretação. E ironicamente foi Orsini quem teve um branco — e Carraro lhe soprou a palavra em cena, uma revanche afetuosa dos colegas de profissão.

Quanto às novas gerações, Orsini vê nos "grandes velhos" referências imprescindíveis: ele mesmo cresceu sob a influência de nomes como Stoppa, Morelli e Sarah Ferrati. O papel do ator veterano, conclui, é ser um farol que ilumina técnicas, disciplina e uma certa ética do trabalho teatral — não apenas a tecnologia do momento, mas a matéria viva da interpretação.

Como analista cultural, não posso deixar de perceber nesta trajetória algo além do individual: Umberto Orsini encarna um capítulo do teatro europeu que resiste ao esquecimento. Sua presença em cena é um lembrete de que o espetáculo é, sempre, um encontro — com o público, com o tempo e com os próprios fantasmas que carregamos. Em tempos de efemeridade, acompanhar artistas como Orsini é ler, frente a frente, o roteiro oculto de uma sociedade que se recusa a perder a memória.