Un po’ di luce: o incerto futuro do Irã no novo filme de Ali Asgari em Veneza
Un po’ di luce, de Ali Asgari, explora a incerteza do Irã entre guerra e família; esperança frágil revelada na Mostra di Venezia.
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Un po’ di luce: o incerto futuro do Irã no novo filme de Ali Asgari em Veneza
Por Chiara Lombardi — Na 83ª Mostra del Cinema di Venezia, o cineasta iraniano Ali Asgari apresenta uma obra que funciona como um espelho do nosso tempo: Un po’ di luce (título original Kami Nour, internacionalmente A Bit of Light) explora a fratura íntima que a incerteza política e social imprime na vida privada.
O filme acompanha um médico iraniano que, após ser detido e ver seu consultório fechado, perde a confiança no futuro. Decidido a tirar a própria vida, ele passa a que considera sua última jornada visitando o irmão, as irmãs e a mãe — encontros que deveriam ser despedidas e, aos poucos, se transformam em uma lenta reconexão com o afeto. É a família que, no roteiro, interrompe o isolamento do protagonista e traz de volta a possibilidade de sobrevivência emocional.
Filmado em circunstâncias especialmente difíceis, quando a guerra começava e a ameaça dos bombardeios pairava como sombra constante, Un po’ di luce não é um filme sobre combates ou trincheiras. Ali Asgari desloca o foco para a condição em que a violência externa se infiltra no cotidiano, tornando a incerteza um elemento estrutural da existência. "Quando a sofrência se torna parte integrante da nossa rotina, o que dá valor à vida?", pergunta o diretor — uma indagação que atravessa tanto a narrativa individual quanto o pano de fundo coletivo.
Através de diálogos contidos, olhares que seguram memórias e pequenos gestos de cuidado, o filme constrói uma resposta: não é a ausência do sofrimento que sustenta, mas os laços invisíveis que nos entrelaçam. A afeição familiar atua como um fio luminoso em um cenário de transformação, oferecendo um reframe da realidade em que a esperança é frágil, porém resistente. O título, literalmente, sugere isso: um pouco de luz — não um clarão que apaga as dificuldades, mas um estreito clarão que permite seguir adiante.
O valor estético da obra também merece destaque. Em sua construção visual e sonora, Ali Asgari privilegia a intimidade em planos que lembram cenários de teatro doméstico, transformando cada cômodo em cenário de memória e confronto. A sensação é a de assistir a um filme que revela o roteiro oculto da sociedade iraniana contemporânea, onde escolhas pessoais reverberam em famílias e comunidades, e onde o contexto político delineia horizontes de impossibilidade.
Para o público internacional que acompanha a Mostra di Venezia, Un po’ di luce aparece como um trabalho que evita a retórica do choque e prefere a precisão emocional. É uma peça sobre resistência cotidiana, sobre como a solidariedade íntima pode ser o único antídoto contra o desespero em tempos de crise. Nesse sentido, o filme se firmaria não apenas como documento de um país, mas como uma fábula universal sobre como seguimos tecendo vida apesar das ruínas.
Ao final, a pergunta que o filme nos deixa não é apenas sobre o destino do protagonista, mas sobre a natureza dos nossos laços: podemos viver isolados ou nossa existência sempre será marcada pelo traço que deixamos nos outros? Un po’ di luce responde com delicadeza — a luz é pequena, a esperança é tênue, mas a presença do outro pode ser suficiente para reescrever um futuro que parecia impossível.

