Queens of the Stone Age: ‘Perfecth’ e o kintsugi que reconstrói o rock
Queens of the Stone Age lançam 'Perfecth' inspirado no kintsugi: imperfeição como força e resistência à IA. Entrevista com Dean Fertita.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Queens of the Stone Age: ‘Perfecth’ e o kintsugi que reconstrói o rock
Por Chiara Lombardi — Em um aceno ao princípio japonês que transforma rachaduras em ouro, os Queens of the Stone Age chegam com Perfecth, nono álbum de estúdio previsto para 30 de outubro pela Matador Records. Antecipado pelos singles 'Easy Street' e 'Insignificant Other', o disco se apresenta como um mapa sonoro da reconstrução: amor que quebra e que, paradoxalmente, tem o poder de recompor.
“Queremos ser como uma banda decadente e malconcia avistata no horizonte em uma estrada do deserto”, disse Josh Homme em passado recente — imagem que ainda descreve a identidade elusiva do grupo. Ao lado de Troy Van Leeuwen, Michael Shuman, Dean Fertita e Jon Theodore, o coletivo continua a operar na franja do rock contemporâneo, explorando o lado sombrio, o desejo e o absurdo sem perder a coerência estética.
Encontro Dean Fertita no começo de julho, poucas horas antes do show em Milão com o System of a Down, em um hotel elegante de frente para a Galleria Vittorio Emanuele II. Ele chega com uma calma quase cinematográfica: camisa de mangas curtas, sorriso discreto. Pouco depois, Josh Homme passa para cumprimentar e segue para sua maratona de entrevistas. Com Fertita, conversamos sobre o processo de composição, a influência do projeto Alive in the Catacombs e o lugar da imperfeição em uma era dominada pela inteligência artificial.
“Sempre escrevemos sem forçar nada, sem pressa”, diz Fertita. “Desta vez, especialmente, era importante deixar o processo acontecer naturalmente. A experiência nas Catacombs contribuiu muito para essa atitude: foi quase um rito que nos mostrou como a beleza pode surgir das ruínas.” O projeto ao qual ele se refere — o show e documentário gravados em julho de 2024 nas catacumbas de Paris — funcionou como catalisador emocional e estético para Perfecth, imprimindo no álbum uma mistura de inquietação e reverência.
O conceito do kintsugi atravessa o trabalho não apenas como metáfora estética, mas como estratégia criativa: reconhecer as rachaduras e transformá‑las em força. “As crepes — ou as falhas — tornaram-se nossa força”, comenta Fertita, numa linha que remete à tradição de reparar com ouro; é o roteiro oculto da banda, que há décadas acompanha a própria história de rupturas e remontagens.
Em tempos em que a tecnologia promete otimização total, os Queens afirmam uma posição quase contracultural. “Na música não há lugar para a IA”, declara Fertita. Para ele, abraçar a falha humana é um gesto radical — uma recusa à homogeneização do som e um convite à experiência genuína. Essa escolha estética parece um espelho do nosso tempo: enquanto algoritmos buscam previsibilidade, a banda celebra a imprevisibilidade como valor estético e ético.
Musicalmente, Perfecth se move entre territórios novos e familiares. Há camadas instrumentais densas, momentos de silêncio cuidadosamente colocados e uma sensibilidade melódica que mapeia diferentes formas de amor — do que dilacera ao que consolida. É um álbum que solicita atenção, como um filme que pede para ser revisto, frame a frame, para se captar o reframe emocional que opera.
Ao final da conversa, Fertita reflete sobre fragilidade e coragem: depois de tantos episódios em que a banda se quebrou e se recompôs, há agora uma confiança tranquila em transformar cada fenda em recurso. Perfecth surge, então, como um ato de resistência estética: a celebração de uma imperfeição que não se desculpa, mas que afirma, sem vanglória, sua própria beleza.
Num cenário de transformação cultural e tecnológica, os Queens entregam um álbum que é, ao mesmo tempo, documento íntimo e manifesto estético — o ouro que preenche nossas rachaduras e, ao fazê‑lo, reflete de volta o tempo em que vivemos.

