Luxuria: "A cultura woke virou bode expiatório para esconder a falta de equidade"
Luxuria critica o uso do termo woke como cortina para evitar debates sobre equidade e direitos LGBTQ; aponta falhas legais e políticas.
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Luxuria: "A cultura woke virou bode expiatório para esconder a falta de equidade"
Por Chiara Lombardi — Em entrevista à Espresso Italia, a ativista e personalidade televisiva Vladimir Luxuria reagiu ao recente debate público reacendido pelas declarações do líder do M5S, Giuseppe Conte, e fez um diagnóstico que soa como um espelho do nosso tempo: "Parlamo della cultura woke per evitare di parlare della mancanza di equità che c’è ancora". Traduzindo para o cenário político- cultural europeu, ela aponta que o rótulo "woke" muitas vezes funciona como um álibi para não enfrentar as desigualdades materiais que estruturam a sociedade.
Conte, em carta publicada na Repubblica, reconheceu que a cultura woke "ci ha spinto ad allargare il concetto di giustizia" e que trouxe um vocabulário mais cuidadoso, bem como práticas de reconhecimento em universidades, mídia e locais de trabalho. Mas advertiu também que, para parte da esquerda, esse movimento tornou-se "una dottrina totalizzante" e defendeu que a agenda progressista deva retornar às "radici materiali delle diseguaglianze". Luxuria lê essa posição como um sinal preocupante: "Mi dispiace che Conte, su questi temi, si dimostri più vicino a quella destra che dovremmo contrastare".
A conversa se estende para figuras como Vannacci, que, segundo Luxuria, vem radicalizando o discurso — citando propostas que poderiam significar retrocessos, como a abolição delle unioni civili, que já são parte do patrimônio cultural democrático, e a sugestão de censura de conteúdos LGBTQ, em ecos que lembram medidas de regimes como o de Putin.
Para a ativista, há ainda muita confusão semântica no cerne do embate: "Woke è un po' come la questione dell'ideologia gender: a volte si creano e si usano termini senza conoscerne neanche il significato". Luxuria recorda a gênese do termo — nascido nos Estados Unidos no contexto da luta pelos direitos dos afro-americanos como um despertar para discriminações visíveis e invisíveis — e como foi ampliado para outras pautas de igualdade. "Non vuol dire neanche 'politicamente corretto'", adverte, reclamando por um uso mais rigoroso dos conceitos dentro do campo progressista.
O cerne da crítica assume contornos legais e práticos quando Luxuria menciona a lei Mancino (1993). Ela enfatiza que, enquanto a legislação prevê agravantes para crimes motivados por ódio religioso, étnico ou nacional, não há uma equiparação clara quando a violência tem motivação homofóbica: "Se uno picchia una persona perché porta la kippah o un crocifisso è prevista un’aggravante... Invece se è gay o lesbica, no". Dela sai a pergunta que define o debate: por que a violência contra alguém por exibir um símbolo rainbow ou por estar de mãos dadas não recebe a mesma leitura jurídica e social?
Na minha leitura — como uma analista que vê o entretenimento e as polêmicas como câmeras que revelam o roteiro oculto da sociedade —, o que Luxuria denuncia é menos um conflito lexicográfico e mais um deslocamento de foco: a etiqueta "woke" funciona como cortina de fumaça política, que permite evitar discussões sobre redistribuição, direitos efetivos e proteção legal. É o eco cultural de uma polarização que prefere rótulos mordazes a intervenções concretas.
Ao final, a chamada de Luxuria é clara e simples: se afirmamos que todos somos criaturas com os mesmos direitos, é preciso que o ordenamento jurídico, o debate público e a prática política reflitam essa igualdade. Sem esse movimento, a retórica sobre "doutrinas totalizantes" permanece como um rótulo eficiente, mas vazio frente às urgências de equidade.

