Venezia 83: Gabbriellini reconta Luca Varani em 'La città dei vivi' — a mãe verá o filme?
Em Venezia 83, Gabbriellini apresenta 'La città dei vivi', sobre Luca Varani; escolha ética de não mostrar a violência e o peso da responsabilidade artística.
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Venezia 83: Gabbriellini reconta Luca Varani em 'La città dei vivi' — a mãe verá o filme?
Por Chiara Lombardi — À Mostra di Venezia, na seção Orizzonti da edição 83, o diretor Edoardo Gabbriellini apresenta La città dei vivi, adaptação do romance homônimo de Nicola Lagioia. O filme reconstrói os episódios que culminaram no assassinato de Luca Varani, ocorrido na noite entre 4 e 5 de março de 2016, em Roma. Mas a escolha estética e ética do cineasta não é a do choque explícito: trata-se antes de um olhar que tenta recuperar a vida antes de a manchete inventar a vítima.
“Não sei se ela vai querer ver o filme”, diz Gabbriellini ao Espresso Italia, referindo-se à mãe de Varani. “Nós convidamos, propusemos — não aqui na Mostra, mas em um contexto mais apropriado. Veremos.” Essa hesitação traduz o fio moral que atravessa o projeto: como representar o sofrimento real sem transformá-lo em espetáculo?
O filme, como ressalta o próprio diretor, não coloca o ato de violência no centro. É, sobretudo, um retrato de formação, a história de um percurso interrompido por uma tragédia. Em tempos saturados pelo true crime, a opção por preservar a ausência da violência física é, sobretudo, uma aposta ética e narrativa — quase um reframing da realidade que nos obriga a olhar o antes, o contexto e as pequenas fissuras que antecedem o colapso.
Nos papéis dos pais de Luca Varani estão Valerio Mastandrea e Simona Senzacqua. Mastandrea comenta que, como pai, é difícil não se perguntar sobre essa história: quando o crime aconteceu, ele era pai há pouco tempo. O ator aponta que o cinema permite uma via de acesso à autenticidade do luto e das relações, tornando possíveis sensações que, de outra forma, seriam impensáveis.
A encarnação do protagonista ficou a cargo do jovem Emanuele Maria Di Stefano, que tinha 14 anos na época dos fatos. Di Stefano conta que escolheu não perseguir uma biografia fetichista do jovem Varani; reconhece, sim, a imensa responsabilidade de vestir um personagem tão sensível. “Provavelmente quem viveu essa vicissitude sentirá novamente uma dor enorme ao ver o filme. Tenho consciência disso e aceito a responsabilidade desse desconforto”, afirma o ator.
O trabalho de Gabbriellini pode ser lido como um espelho do nosso tempo: em vez de alimentar a curiosidade mórbida, o filme busca devolver rostos, contextos e uma compreensão humana. É uma narrativa que se recusa a transformar tragédia em entretenimento puro, optando por decifrar o roteiro oculto da sociedade que torna certas fatalidades possíveis. Em suma, La città dei vivi não quer apenas contar um crime; quer mostrar o tecido social — frágil e ambíguo — que o precede.
Resta a pergunta ética que perpassa a estreia em Veneza: até que ponto a arte tem o dever de acolher as feridas reais e quando corre o risco de reabri-las? A resposta de Gabbriellini, por ora, vem em forma de convite ponderado e de um filme que prefere a introspecção ao espetáculo.

