Veneza 83: O Pagellone do Lido na sexta jornada — entre lendas, escândalos e saltos doloridos

Veneza 83: o Lido entre a classe de Ellen Burstyn, as escapadas de Valeria Bruni Tedeschi e os dramas do red carpet.

Veneza 83: O Pagellone do Lido na sexta jornada — entre lendas, escândalos e saltos doloridos

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Veneza 83: O Pagellone do Lido na sexta jornada — entre lendas, escândalos e saltos doloridos

No Lido, palco onde o cinema se mistura ao espetáculo e ao efêmero, convivem várias espécies de visitantes: o curioso que veio pelo filme, o influenciador pelo red carpet, o colecionador de brinde e o oportunista do bar do Excelsior. E nós, que trazemos caderno e ironia, contamos o que não aparece nas mesas oficiais: os aplausos que viram ondas, os silêncios cortantes, os looks que desafiam a gravidade e as figuras que ressurgem entre um photocall e um after secreto. A Mostra de Veneza é, afinal, um espelho do nosso tempo — onde o sublime e o absurdo se sentam lado a lado.

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Na sexta jornada de Venezia 83, quem restituiu ordem com a sóbria autoridade de uma estrela foi Ellen Burstyn. Aos 93 anos, a atriz recebeu o Leone d'Oro alla Carriera como quem recita leves memórias, quase um gesto cotidiano: “Vencer um Oscar, um Tony ou um Emmy é importante”, disse ela com pausa calculada. E depois: “Mas isto é muito mais”. Em uma era de divas de TikTok e seguidores que sobem e descem como números em um monitor, a lição de zia Ellen foi direta — talentos duram, tendências passam. A sua presença funcionou como um reframe, lembrando que a verdadeira classe resiste ao tempo e aos likes.

Do lado oposto do palco, houve a cena da atriz e diretora Valeria Bruni Tedeschi, que se esquivou de entrevistas em vídeo afirmando que “não se mantinha em pé”. O episódio, contado nos bastidores, tinha um aroma de comédia absurda: as entrevistas eram sentadas. Entre o sincero mal-estar e a encenação, resta a curiosidade sobre o que revela essa performance — talvez o cansaço de uma maratona de sol, flashes e compromissos, talvez o teatro privado de uma estrela que prefere resguardar o próprio corpo em público.

Também na curadoria do grotesco contemporâneo, merece destaque o crescente grupo do “Centro ‘Evidentemente não entendeu a minha visão’”: cineastas que, feridos por críticas, enviam ao jornalista longas defesas teóricas e cartas inflamadas explicando por que seu filme é um hino. Essa reação transforma o dissenso crítico num conflito pessoal, um tipo de rancor que diz mais sobre a vaidade do autor do que sobre a obra. É o roteiro oculto da sociedade criativa: confundir debate com ataque.

Por fim, um tributo breve e sensível aos pequenos heróis anônimos do tapete vermelho — os mignolini dos pés que sucumbem a sapatos apertados. Feridos na sola, pulsando em silêncio, lembram que o sofrimento do espetáculo às vezes se mede em centímetros: um dedo a menos de conforto pode ser a diferença entre elegância cinematográfica e dor real. Esses passos sacrificados reverberam como pequenos tambores tribais, recordando que, mesmo em festas, há sempre um preço a pagar.

Veneza segue sendo um microcosmo: espelho cultural, palco de memória e laboratório de vaidades. Entre a dignidade de quem construiu a história do cinema e as pequenas tragédias cotidianas do festival, o Lido revela o seu eco cultural — um evento onde cada gesto conta e cada silêncio fala mais alto que mil discursos.

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